
(*) Jorge Gama
Na maioria das vezes, a caminhada decorre de uma atitude isolada, de uma ideia solitária que, no limite, tenta se transformar em um grito capaz de sacudir os que não ouvem, animar os que não acreditam e enfrentar os que oprimem. É, portanto, um desafio cercado de incertezas e um risco embalado pelo desespero daqueles que reconhecem que os limites do caos merecem um grito de esperança e de determinação, direcionado às mudanças necessárias.
Relembremos apenas duas caminhadas memoráveis e transformadoras do século XX. Mahatma Gandhi resistiu e superou a exploração da Inglaterra sobre a Índia com uma caminhada histórica, baseada no princípio da não violência. Venceu e tornou-se um monumento moral e histórico que permanece presente até os nossos dias.
Mais adiante, outro iluminado, Martin Luther King, pastor e dono de um discurso comparado a uma oração cívica de valor moral incalculável, protagonizou a grande caminhada em defesa dos Direitos Civis na América.
As caminhadas carregam um tipo de energia misteriosa que, mesmo diante dos avanços da tecnologia, subordina-se à força secreta e comovente da solidariedade humana. A caminhada de Nikolas Ferreira, que agora, em tempo real, acompanhamos pelas redes sociais, já no século XXI, permite-nos ver e sentir a emoção de um ato voluntário e solitário que poderia resultar em fracasso, mas que se transforma em um verdadeiro caldeirão de gestos e emoções espontâneas.
Esse movimento já impulsiona corações e mentes por onde passa, atingindo em cheio o sentimento daqueles que, atentos, conseguem viver um grande ato de grandeza. A cada passo, a trajetória da caminhada agrega um gesto prático ou um movimento simbólico, sinalizando que um sonho carregado de esperança pode despertar um povo e uma nação cuja solidariedade estava apenas adormecida — e que ainda pode mudar o Brasil.
(*) Jorge Gama é Advogado e ex-Deputado Federal