A transformação digital das cidades

(*) Vicente Loureiro

As novas tecnologias estão cada vez mais presentes na gestão das cidades. Melhorias nas infraestruturas, alavancadas por empresas e por governos, visando elevar o padrão de qualidade de vida e facilitar a vida do cidadão, frequentam o cenário urbano brasileiro há tempos. Já contabilizam, inclusive, resultados auspiciosos. Esbarram, ainda, em obstáculos para fazer com que tais benefícios cheguem a toda a população.

A chamada exclusão digital deixa no ar a pergunta: quem se beneficia, de fato, das chamadas cidades inteligentes?

Empresas de tecnologias disruptivas chegaram para levar diretamente aos cidadãos alguns serviços, como aplicativos de transporte, a exemplo do Uber, ou de locação de imóveis, como o Airbnb, sem que, necessariamente, as infraestruturas e os serviços públicos por eles utilizados recebessem a devida compensação. Sem contar os efeitos da precarização das relações de trabalho por eles estimuladas. Por conta disso, talvez, uma onda mais recente dessas novas tecnologias pretenda trazer mais valor público às iniciativas, pondo em xeque o domínio dos dados pelas gigantes da tecnologia.

Estratégias de governança éticas e inclusivas da digitalização urbana, por meio da regulação adequada, da redução das desigualdades digitais e sociais, do controle compartilhado dos dados e dos riscos à privacidade, seguem sendo, entre outros, os principais desafios da transformação digital das cidades no Brasil e no mundo. Aumentar a participação direta do cidadão, por meio de plataformas como o Colab, pode contribuir para garantir o alcance público de tais inovações.

Condições para aprimorar a compreensão e a modelagem do ambiente construído por meio de gêmeos digitais, o uso de dados de telefonia móvel para formular ou ajustar políticas públicas, a disponibilidade de tecnologias para espacializar e monitorar as atividades desenvolvidas no espaço público, a possibilidade de acompanhar, por meio de sensores, a qualidade do ar, do pavimento das vias etc., são recursos já em uso, capazes de catapultar a velocidade e o alcance das transformações digitais nas cidades.

A crença, também crescente, de que as novas tecnologias ajudarão a corrigir problemas estruturais da sociedade contemporânea precisa ser confrontada. Acreditam seus mais radicais e extremados defensores que cidades independentes, as chamadas seasteading, localizadas nos oceanos, em águas internacionais, livres, portanto, da jurisdição, do território e do controle de qualquer nação, guardariam o futuro da vida urbana no planeta.

Não é coincidência que esse mesmo grupo de ativistas das novas tecnologias creia também que a democracia chegue ao fim. É preciso ficar plugado, mas sem tirar a mão da tomada.

(*) Vicente Loureiro é arquiteto e urbanista, formado pela Faculdade Silva e Souza, e doutorando em urbanismo pela Universidade de Lisboa. Foi secretário de Estado de Assuntos Fundiários e Assentamentos Humanos; Subsecretário de Estado de Desenvolvimento da Baixada; Subsecretário estadual de Projetos de Urbanismo Regional e Metropolitano, e Diretor-executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental