
(*) Por Joé Sestello
A Baixada Fluminense, uma das regiões mais populosas e socialmente desafiadoras do estado do Rio de Janeiro, atravessa hoje um dos momentos mais críticos de sua história na área da saúde pública. Não se trata de um episódio isolado ou de uma crise circunstancial. O que vemos é o resultado direto de anos de negligência, descontinuidade administrativa e ausência de políticas públicas consistentes e sustentáveis.
Milhões de cidadãos dependem quase exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e enfrentam, diariamente, um cenário que desafia qualquer noção de dignidade. O acesso é difícil, a continuidade do cuidado é falha e a estrutura, em muitos casos, é insuficiente. Vivemos uma verdadeira tempestade perfeita: unidades superlotadas, escassez de profissionais, falta de insumos e uma demanda crescente impulsionada pelo avanço silencioso das doenças crônicas.
Ainda assim, é preciso reconhecer – com responsabilidade e honestidade – que a Baixada não é um território homogêneo. Existem municípios que vêm demonstrando que é possível fazer diferente. Indicadores de plataformas oficiais do Ministério da Saúde, como a Previva e a Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde (IVIS), mostram avanços concretos em determinadas localidades. Esses resultados não são fruto do acaso. São consequência direta de gestão, planejamento e compromisso. É evidente que ninguém entrega aquilo que não possui, mas também é evidente que, quando há seriedade na condução, os resultados aparecem. Isso precisa ser dito com clareza: a boa gestão salva vidas.
A vulnerabilidade social, no entanto, segue sendo o principal combustível dessa crise. Em grande parte da região, famílias vivem com renda limitada, em condições precárias e sem acesso pleno a serviços básicos como saneamento e água potável. Esse cenário não apenas impacta a saúde – ele a determina. Doenças evitáveis continuam surgindo e evoluindo porque o ambiente em que essas pessoas vivem é, por si só, um fator de risco permanente.
A fragilidade da Atenção Primária à Saúde agrava ainda mais esse quadro. Sem uma base sólida, capaz de prevenir, diagnosticar precocemente e acompanhar os pacientes de forma contínua, o sistema colapsa. Doenças como diabetes e hipertensão seguem avançando de forma silenciosa até se tornarem casos graves e de alto custo. Falta medicamento, falta exame, falta acesso ao especialista e sobra sofrimento.
Nos hospitais, o que se observa, muitas vezes, são tentativas paliativas de administrar o caos. Medidas pontuais que aliviam momentaneamente a superlotação, mas não enfrentam o problema estrutural. Em alguns casos, cria-se uma falsa sensação de normalidade, enquanto o sistema opera no limite, ou além dele. Isso compromete a qualidade da assistência e, mais grave, coloca vidas em risco.
Diante desse cenário, não há mais espaço para diagnósticos repetidos sem ação concreta. As soluções são conhecidas. O que falta é execução. É necessário fortalecer de forma real a Atenção Primária, ampliar o acesso a exames e especialistas, investir seriamente em prevenção e, sobretudo, integrar políticas públicas que garantam condições dignas de vida à população.
Mas há um elemento igualmente essencial nesse processo: a conscientização da sociedade. A população precisa estar atenta, refletir sobre os fatos e questionar. O cidadão pode ser agente ativo de transformação. A escolha de representantes comprometidos com políticas públicas sérias e estruturantes é um passo decisivo para a construção de um futuro melhor.
Não basta apenas explicar os mecanismos do voto – é necessário evidenciar, de forma clara e contínua, que a realidade atual é insustentável e que mudanças são urgentes. Dias melhores são possíveis, mas dependem de decisões conscientes e de um engajamento coletivo.
A Baixada Fluminense não pode mais esperar. A saúde pública da região exige coragem, responsabilidade e ação imediata. É hora de romper com o ciclo de abandono e construir, com seriedade, um novo padrão de cuidado baseado em eficiência, respeito e compromisso com a vida.
(*) Joé Sestello é angiologista, cirurgião vascular e endovascular, e diretor-presidente da Unimed Nova Iguaçu