Harmonia Enlouquece celebra 25 anos misturando saúde mental e música

Harmonia Enlouquece celebra 25 anos misturando saúde mental e música

Rompendo estigmas, grupo do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro mostra que saúde mental se constrói com cultura, escuta e humanidade

Na Praça da Harmonia, na Gamboa, em frente ao Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), a música ecoou mais alto que qualquer diagnóstico, nesta terça-feira (7). O grupo Harmonia Enlouquece celebrou seus 25 anos de história com uma apresentação emocionante, reunindo músicos, familiares, amigos e profissionais de saúde em um encontro marcado pela arte e pela superação de estigmas.

Mais do que um show, o evento (foto)foi um manifesto pela humanização do cuidado em saúde mental. Ligado à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) e administrado pela Fundação Saúde, o CPRJ se consolidou como referência em um modelo que rompe com o silenciamento histórico das pessoas em sofrimento psíquico, e o Harmonia Enlouquece é um dos seus maiores símbolos.

“Ali, não há rótulos. São músicos. Compositores. Intérpretes de suas próprias histórias”, disse o diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão, mais conhecido como Dr. Kiko.

Ao longo de duas décadas e meia, o grupo composto por pacientes psiquiátricos transformou experiências muitas vezes invisibilizadas em canções que falam de dor, alegria, cotidiano e resistência. Hoje, já são mais de 60 músicas gravadas, e um novo capítulo está a caminho. A banda prepara o quinto álbum, intitulado “O Quinto dos Infernos”, que promete trazer, entre os destaques, a canção “O Amor Chegou”, uma homenagem ao menino Henry Borel, composta pelo vocalista Hamilton Assunção.

A celebração contou ainda com a participação especial da Velha Guarda da Imperatriz Leopoldinense (foto), reforçando o encontro entre cultura popular e saúde mental. Na plateia, familiares e amigos dos integrantes compartilhavam emoção e orgulho, muitos deles testemunhas de trajetórias marcadas por desafios e reconstruções.

Para o Dr. Kiko, a história do grupo é motivo de orgulho e também de transformação coletiva.

“A importância de estarmos completando 25 anos do Harmonia Enlouquece é motivo de muito orgulho. Muitas coisas que antes eram tabu passaram a ser expressadas através da música. Isso torna mais fácil conviver com os próprios desafios. Ninguém se trata sem ser ouvido”, afirmou.

25 anos de dignidade e gratidão

A fala do diretor traduz o espírito do projeto, que é dar voz a quem, por muito tempo, foi reduzido ao silêncio. Um dos fundadores do grupo, o psicólogo e musicoterapeuta Sidney Dantas destacou que o reconhecimento conquistado ao longo dos anos reflete uma mudança profunda na forma como a sociedade enxerga a saúde mental.

“No início, eles eram apresentados como pacientes psiquiátricos. Hoje, são reconhecidos como músicos. Isso mostra uma mudança de paradigma. Eles passam a ocupar o campo da cultura, do trabalho, da produção artística”, explicou.

Essa virada não é apenas simbólica, mas representa a quebra de barreiras que historicamente afastaram pessoas em sofrimento psíquico da convivência social.

o CPRJ aponta caminhos, onde o tratamento não se limita à medicação, mas inclui arte, vínculo, autonomia e pertencimento


No palco, essa transformação ganhou forma e som. Para Hamilton Assunção, vocalista e compositor, a trajetória do grupo é construída coletivamente e segue crescendo a cada novo encontro.

“A importância desses 25 anos está na dignidade e na gratidão de poder estar com essas pessoas. Eu preparei meu coração para essa apresentação. A música leva a nossa mensagem para outros lugares, outros hospitais, outras pessoas que também precisam”, disse o músico.

Durante o evento, o repertório percorreu sucessos dos quatro discos já lançados e abriu espaço para novas composições. Como de costume, não havia roteiro rígido. A apresentação seguiu o ritmo da emoção, da interação com o público e da própria essência do grupo: “imprevisível, viva e profundamente humana”, como disse o diretor-geral.

“O cuidado em saúde mental precisa ser feito com escuta, respeito e possibilidades reais de expressão. A experiência do CPRJ aponta caminhos. Caminhos onde o tratamento não se limita à medicação, mas inclui arte, vínculo, autonomia e pertencimento. O Harmonia Enlouquece brinda não apenas sua própria história, mas um projeto maior, de uma sociedade que aprende, pouco a pouco, a olhar para a saúde mental com mais humanidade. E, sobretudo, a ouvir”, completou o médico psiquiatra.