Rússia encontra o Recife e Belford Roxo sonha alto pela Série Ouro na passarela da Marquês de Sapucaí
A escola de samba Inocentes e Belford Roxo mostrou na Marquês de Sapucaí que a ousadia também é ferramenta de competição. Segunda escola da noite, pela Série Ouro, a agremiação da cidade de Belford Roxo apostou no improvável e realizou uma viagem estética e musical que uniu as estepes geladas ao calor nordestino sob o som da sanfona de Luiz Gonzaga.

Por Geraldo Perelo
A ousadia virou espetáculo e a criatividade ganhou passaporte internacional. A Inocentes de Belford Roxo incendiou a avenida ao transformar o improvável em realidade na histórica passarela da Marquês de Sapucaí. Segunda escola a desfilar na sexta-feira da Série Ouro, a agremiação da Baixada Fluminense apostou no delírio poético de “O Sonho de Um Pagode Russo nos Frevos do Meu Pernambuco”, assinatura do carnavalesco Edson Pereira — e saiu aclamada sob gritos de “é campeã”.
A proposta partiu de um encontro inusitado: as estepes geladas da Rússia dialogando com o chão quente do Recife. Mas o que poderia soar apenas exótico revelou-se uma narrativa coesa e vibrante. A escola defendeu que o frevo, a sanfona e o espírito festivo nordestino são capazes de aquecer qualquer inverno europeu — e convenceu.

Matrioskas ganharam cores tropicais, cúpulas inspiradas em São Petersburgo dançaram ao som do samba e sombrinhas de frevo brilharam como flocos de neve incendiados pela alegria. O desfile foi visualmente impactante, tecnicamente equilibrado e harmonicamente envolvente.
Comissão de Frente arrebatadora
Coreografada por Patrícia Salgado e Sérgio Lobato, a Comissão de Frente foi um dos pontos mais altos da apresentação. Quinze bailarinos dividiram a cena entre russos e pernambucanos, tendo ao centro um sanfoneiro no alto de um tripé cenográfico.
O clímax veio com a explosão de cores e faíscas surgindo das sombrinhas, arrancando aplausos imediatos do público. A leitura foi clara, bem ensaiada e sintetizou com precisão o “casamento na neve” proposto pelo enredo.
O primeiro casal, Vinicius Jesus e Thainá Teixeira, apresentou bailado clássico, rodopios equilibrados e sincronia elegante, defendendo o pavilhão com segurança.
Na condução do samba, o intérprete Ito Melodia mostrou firmeza e vibração do início ao fim. Filho do saudoso Haroldo Melodia, Ito chamou o canto quando necessário e garantiu sustentação melódica consistente.
À frente da bateria “Cadência da Baixada”, a rainha Carolane Silva exibiu samba no pé e carisma. A batucada apostou em bossas dialogando com o frevo, criando identidade sonora própria sem perder o peso tradicional do samba.
Alegorias imponentes e emoção da Velha Guarda

A escola apresentou três grandes carros alegóricos com leitura temática objetiva e impacto visual:
- “O Sonho de Pedro, o Grande, no Paço do Frevo” abriu o desfile com imponência, fundindo arquitetura imperial russa ao Carnaval recifense.
- “Festa Junina Sob Lente Imperial” trouxe leveza e ludicidade ao misturar bandeirolas com referências czaristas.
- “Apoteose do Frevo” encerrou o conjunto alegórico com dinamismo e sensação de clímax, valorizado por iluminação eficiente.
Um dos momentos mais emocionantes foi a presença da Velha Guarda em posição de honra numa das alegorias — símbolo de tradição dentro de um enredo que celebrava justamente o encontro de culturas.
Houve um instante de tensão antes do módulo 3, quando a ala de passistas abriu um espaço perceptível na pista, quebrando momentaneamente a linearidade do conjunto. A correção foi rápida e não comprometeu o rendimento geral.
No balanço final da primeira noite da Série Ouro, a Inocentes despontou como forte candidata ao título, dividindo o favoritismo com a União de Jacarepaguá e a tradicional Estácio de Sá.

Convicto do trabalho apresentado, o presidente Reginaldo Gomes deixou a avenida confiante, afirmando que a escola brigaria por nota máxima em todos os quesitos.
A “caçula” da Baixada mostrou maturidade, luxo e organização. Superou fantasmas de problemas técnicos de anos anteriores e apresentou um desfile limpo, vibrante e competitivo.
Se depender da reação do público na Sapucaí, o sonho russo pode mesmo terminar em coroação pernambucana — e com a Baixada Fluminense celebrando o acesso ao Grupo Especia















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