Semuni: a casa onde a dor vira força e a política pública se transforma em recomeço para mulheres em Nova Iguaçu
Em um município com cerca de 843 mil habitantes, onde 55,7% da população é feminina, os dados do IBGE revelam um cenário alarmante: ao menos 7.977 mulheres já foram vítimas de algum tipo de violência. É nesse contexto que a vice-prefeita e secretária da Mulher, Roberta Teixeira, assume um papel que ultrapassa o institucional. Advogada, aos 44 anos, ela conduz a Semuni como quem rege uma orquestra complexa — onde cada política pública precisa alcançar, de fato, quem mais precisa.

Por Geraldo Perelo
Às vésperas de completar seu primeiro ano de existência, a Secretaria da Mulher de Nova Iguaçu (Semuni), já não cabe mais apenas em números, relatórios ou estatísticas. Ela se traduz, sobretudo, em histórias — muitas delas marcadas pela dor, pela invisibilidade e pela violência, mas que, ao cruzarem a porta de um prédio de quatro pavimentos na Rua Terezinha Pinto, encontram acolhimento, escuta e a possibilidade concreta de recomeçar.
Criada em 10 de abril de 2025, a Semuni nasce em um território onde ser mulher ainda significa, muitas vezes, sobreviver diariamente a múltiplas violências. Em um município com cerca de 843 mil habitantes, onde 55,7% da população é feminina, os dados do IBGE revelam um cenário alarmante: ao menos 7.977 mulheres já foram vítimas de algum tipo de violência — a maioria dentro da própria casa, praticada por pessoas conhecidas. Um número que, por si só, já é grave, mas que ainda carrega o peso da subnotificação.

A Casa da Mulher é um projeto bem sucedido, onde se encontra acolhimento, escuta e a possibilidade concreta de recomeçar a vida: seja bem-vinda
É nesse contexto que a vice-prefeita e secretária da Mulher, Roberta Teixeira, assume um papel que ultrapassa o institucional. Advogada, aos 44 anos, prestes a se formar também em Medicina, ela conduz a Semuni como quem rege uma orquestra complexa — onde cada política pública precisa alcançar, de fato, quem mais precisa.
“Por aqui, a mulher iguaçuana encontra acolhimento, empatia, compromisso e trabalho integrado com outras secretarias”, resume.
E não é discurso vazio. Em menos de um ano, a secretaria já contabiliza 23.859 atendimentos, sendo 20.240 realizados por meio da Rota da Mulher — um dos projetos mais emblemáticos da gestão. Mais do que um serviço itinerante, a Rota se consolidou como um instrumento de transformação social, levando dignidade a territórios historicamente negligenciados, como Miguel Couto, Santa Rita, Ouro Verde, Jardim Guandu, Valverde e Austin.

Em menos de um ano, a Secretaria da Mulher já contabiliza 23.859 atendimentos,
Ali, o cuidado chega em forma de escuta, orientação e serviços essenciais. A saúde é a principal porta de entrada — representando 46,6% das demandas — com atendimentos que vão desde aferição de pressão arterial e glicemia até exames de mamografia, vacinação e acesso a métodos contraceptivos. Em seguida, aparecem os serviços de cidadania, como emissão de documentos, acesso ao CadÚnico e orientação jurídica.
Mas os números revelam mais do que demandas: eles desenham o rosto da mulher iguaçuana. Em sua maioria, preta ou parda (74,1%), com ensino médio completo ou incompleto, muitas vezes fora do mercado formal de trabalho — 26,2% desempregadas e 18,7% dedicadas exclusivamente ao cuidado do lar. Mulheres que carregam, além das próprias dores, o peso de cuidar dos filhos, da casa e, muitas vezes, de familiares doentes.
“Quando a gente desenha a mulher iguaçuana, ela é periférica, está na informalidade e precisa dar conta de tudo. Mas ela também é ativa, quer crescer, quer vencer”, define Roberta.
É por isso que a Semuni não se limita ao enfrentamento da violência, embora ele seja central. Mulheres vítimas de agressões físicas, psicológicas, morais ou patrimoniais encontram suporte no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM), com acompanhamento psicológico, social e jurídico. Nos casos mais graves, o fluxo de proteção envolve a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), a Patrulha Maria da Penha e, se necessário, o encaminhamento para abrigamento.
Mas a política pública vai além do socorro emergencial. Ela se constrói também na prevenção e, principalmente, na autonomia. A secretaria investe fortemente em capacitação profissional e empreendedorismo, entendendo que a independência financeira é uma das chaves para romper ciclos de violência.
Workshops, oficinas e cursos — de beleza, gastronomia, informática, idiomas e gestão financeira — ampliam horizontes e criam novas possibilidades. “Muitas mulheres partem para o empreendedorismo porque é a alternativa possível para gerar renda. E nós precisamos fortalecer isso”, afirma a secretária.

A secretaria investe fortemente em capacitação profissional e empreendedorismo, chaves para romper ciclos de violência.
Dentro da Semuni, cada detalhe parece pensado para acolher. Há auditórios para palestras, espaços de convivência e até brinquedoteca para filhos de mães atípicas, que recebem atendimento psicológico enquanto suas crianças são cuidadas. É uma estrutura que dialoga com a realidade de quem chega — e que, muitas vezes, nunca encontrou um espaço público preparado para recebê-la por inteiro.
A saúde da mulher também ganha protagonismo com programas como o Viva Bem Mulher, voltado ao enfrentamento da obesidade e de doenças associadas, e iniciativas de planejamento reprodutivo, que chegam às escolas para orientar jovens sobre seus direitos e escolhas.
“A ideia não é incentivar a iniciação precoce, mas garantir informação para que essas meninas possam decidir sobre suas próprias vidas”, explica a subsecretária Ana Lúcia.

A secretaria disponibiliza brinquedoteca para filhos de mães atípicas, que recebem atendimento psicológico enquanto suas crianças são cuidadas
O Ônibus Rosa, símbolo dessa política itinerante, percorre o município levando atendimento médico, odontológico e testes rápidos aos bairros mais distantes, reduzindo barreiras geográficas que historicamente dificultam o acesso aos serviços públicos.
Por trás de tudo isso, há uma história pessoal que se mistura à construção da política pública. Roberta Teixeira não fala de um lugar distante. Mulher, periférica, pessoa com deficiência e que já enfrentou a obesidade, ela conhece na pele os obstáculos que hoje combate institucionalmente.
“Você sente o impacto por ser mulher da Baixada. Mesmo com alguns privilégios, eu enxerguei o quanto outras mulheres enfrentam dificuldades muito maiores”, relembra a secretária.
A ideia da secretaria começou a tomar forma ainda em 2019, durante sua formação em políticas públicas pelo RenovaBR. De lá para cá, ganhou corpo até se tornar uma das iniciativas mais estruturadas do atual governo municipal.

“Foi uma pauta positiva para um município que enfrenta tantas dificuldades em tantas áreas. A ideia foi fazer uma transversalização de gênero por cada uma das secretarias. Isso é o trabalho de construção de uma identidade por parte de quem tinha uma proposta de política pública a ser incrementada para as mulheres”, lembra.
Mais do que uma secretaria, a Semuni (foto) se consolidou como uma rede viva de proteção, cuidado e oportunidades. Um espaço onde mulheres chegam, muitas vezes, fragilizadas — e saem fortalecidas, com informação, apoio e caminhos possíveis para reconstruir suas trajetórias. E talvez seja esse o maior resultado de todos: transformar políticas públicas em algo palpável, humano e acessível. Porque, em Nova Iguaçu, a porta que se abre na Semuni não é apenas a de um prédio público — é a de um novo começo
Fotos: Geraldo Perelo















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