Operação Contenção transforma o Rio de Janeiro em cenário de guerra; 64 mortos e dezenas de feridos marcam a maior ação policial em 15 anos

Operação Contenção transforma o Rio de Janeiro em cenário de guerra; 64 mortos e dezenas de feridos marcam a maior ação policial em 15 anos

Resultado de um ano de investigação e 60 dias de planejamento, a ação é considerada a maior operação integrada das forças de segurança do Rio em 15 anos. Foram cumpridos centenas de mandados de prisão e busca e apreensão. Entre os detidos está Nicolas Fernandes Soares, apontado como operador financeiro de Edgard Alves Andrade, o “Doca”, e Thiago do Nascimento Mendes, o “Belão do Quitungo”.

Por Geraldo Perelo

O Estado do Rio viveu nesta terça-feira (28) um dos dias mais violentos de sua história recente. Uma megaoperação integrada das forças de segurança pública, batizada de “Operação Contenção”, mobilizou 2.500 agentes das polícias Civil, Militar e Penal com o objetivo de desarticular a atuação do Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital.

O confronto, de proporções inéditas, deixou 64 mortos, entre eles dois policiais civis: o chefe de investigação Marcus Vinicius Cardoso de Carvalho, de 51 anos, e o agente Rodrigo Velloso Cabral, de 34, formado há apenas 40 dias. Outros nove policiais — civis e militares — e quatro moradores também ficaram feridos, vítimas de balas perdidas.

Colunas de fumaça podiam ser vistas de diversos pontos da cidade

Entre as vítimas civis, estão um mototaxista, uma mulher baleada dentro de uma academia e um homem em situação de rua, internado em estado grave. O clima de tensão paralisou parte da cidade: 45 escolas e cinco unidades de saúde suspenderam o funcionamento, e vias expressas como a Linha Amarela foram interditadas.

A maior operação em mais de uma década

Resultado de um ano de investigação e 60 dias de planejamento, a ação é considerada a maior operação integrada das forças de segurança do Rio em 15 anos. Foram cumpridos centenas de mandados de prisão e busca e apreensão, expedidos a partir de inquéritos conduzidos pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), com apoio do Ministério Público Estadual e sob diretrizes da ADPF 635, que determina o uso de câmeras corporais e apoio médico emergencial durante incursões policiais.

Até o início da tarde, a polícia havia apreendido mais de 75 fuzis, grande quantidade de drogas e efetuado 81 prisões. Entre os detidos está Nicolas Fernandes Soares, apontado como operador financeiro de Edgard Alves Andrade, o “Doca”, e Thiago do Nascimento Mendes, o “Belão do Quitungo”. Também foram identificados três criminosos de outros estados — dois da Bahia e um do Espírito Santo.

Violência e caos urbano

Pelo menos 2.500 policiais foram mobilizados para a Operação Contenção desta terça-feira

O avanço das tropas provocou forte reação armada. Traficantes usaram drones para lançar explosivos, atravessar ônibus e ergueram barricadas nos acessos às comunidades, transformando o espaço urbano em campo de batalha. Colunas de fumaça podiam ser vistas de diversos pontos da cidade.

A Rio Ônibus informou que deixou de divulgar a situação operacional das empresas diante do avanço dos ataques. Veículos queimados bloquearam vias em bairros como Anchieta, Méier, Engenho Novo, Cidade de Deus, Engenho da Rainha e Chapadão, afetando gravemente a mobilidade urbana.

Governo fala em “narcoterrorismo” e pede pacto nacional

Em entrevista coletiva no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), o governador Cláudio Castro (foto) classificou a ofensiva como uma resposta à escalada do que chamou de “narcoterrorismo”.

“O que enfrentamos não é mais crime comum. Os criminosos utilizam tecnologia de guerra — drones, bombas e armamentos pesados. O Estado está preparado. Quem manda nesses territórios é o cidadão de bem, não o tráfico”, declarou o governador.

Castro destacou que a política de segurança estadual tem se pautado em investigação, integração e investimento. Segundo ele, pelo terceiro ano consecutivo, o Rio ultrapassa R$ 16 bilhões em recursos destinados à segurança — o maior volume em mais de uma década.

“Os confrontos ocorrem majoritariamente em áreas de mata. O planejamento foi feito para preservar vidas e reduzir riscos à população”, completou.

O governador fez ainda um apelo por união nacional no combate ao crime organizado, defendendo um pacto entre estados, União e Forças Armadas.

“Essa guerra não é só do Rio, é do Brasil. Nenhum estado vence sozinho. O tráfico tem poder econômico e presença nacional. Precisamos de maturidade e cooperação institucional”, afirmou.

Complexos sob cerco e tensão permanente

Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas durante os confrontos, vítimas de balas perdidas

Os complexos do Alemão e da Penha, que abrigam cerca de 290 mil moradores e 26 comunidades, permaneceram cercados por blindados e helicópteros ao longo do dia. Ambulâncias do Grupamento de Salvamento e Resgate prestaram apoio às equipes em solo.

Agentes da Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) também participaram da operação, com o objetivo de localizar foragidos beneficiados por saídas temporárias que não retornaram ao sistema prisional.

Boa parte dos feridos foi encaminhada ao Hospital Getúlio Vargas, na Penha, onde dezenas de policiais se reuniram para acompanhar o estado de saúde dos colegas.

Um dia que ficará na história do Rio

Com o saldo trágico e a repercussão nacional, a Operação Contenção marca um ponto de inflexão na política de segurança pública fluminense — tanto pela magnitude dos confrontos quanto pela dimensão institucional da resposta estatal.

A terça-feira, 28 de outubro de 2025, entra para a história como um dos dias mais violentos e emblemáticos da luta do Rio de Janeiro contra o poder armado do tráfico.

Com Núcleo de Imprensa do Governo do Estado do Rio de Janeiro