Projeto pioneiro em Belford Roxo aposta na alfabetização para resgatar dignidade da população em situação de rua
Voltado a jovens e adultos atendidos pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), o projeto vai oferecer aulas duas vezes por semana, em turnos da manhã e da tarde, com duração de duas hora. Aos 41 anos de idade e há muito tempo vivendo em situação de rua, Fábio Roberto (foto) recebeu antecipadamente o kit escolar básico

A Prefeitura de Belford Roxo deu um passo histórico na política de inclusão social ao lançar o projeto “Letras que Acolhem”, uma iniciativa inovadora que pretende alfabetizar pessoas em situação de rua e ampliar suas chances de reinserção social e profissional. Desenvolvido pela Secretaria Municipal de Assistência e Cidadania (Semasc), em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, o programa é considerado pioneiro no estado do Rio de Janeiro.

Representantes da Educação e da Assistência Social durante o lançamento do “Letras que Acolhem”
A apresentação ocorreu na quadra coberta da Primeira Igreja Batista, no Bairro das Graças, reunindo profissionais de diversas áreas e marcando um momento simbólico de compromisso público com a dignidade humana. Para o secretário municipal de Assistência Social e Cidadania, Diogo Bastos, o lançamento representa um divisor de águas. “É um dia emblemático, que reafirma o papel transformador da educação”, destacou.
Educação como porta de saída das ruas
Voltado a jovens e adultos atendidos pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), o projeto vai oferecer aulas duas vezes por semana, em turnos da manhã e da tarde, com duração de duas horas. O início das atividades está previsto para após a conclusão das obras das novas instalações do Centro Pop, que ganhará um endereço mais amplo e estruturado próximo ao Centro da cidade.
A proposta vai além da alfabetização tradicional. A metodologia será baseada na realidade vivida pelos participantes, respeitando trajetórias individuais e utilizando linguagem acessível, experiências pessoais e conteúdos do cotidiano. A idealizadora do projeto, a assistente social Rosangela Pedra, explica que muitos usuários não são totalmente analfabetos, mas enfrentam dificuldades básicas, como interpretar textos ou assinar o próprio nome — obstáculos que dificultam desde o acesso a serviços até a obtenção de emprego.
Metodologia humanizada e inclusiva
Segundo a psicopedagoga Michele Castro, responsável pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) no município, as aulas utilizarão uma abordagem diferenciada, baseada na vivência dos alunos. Estão previstas rodas de conversa, escuta ativa, produção de textos autobiográficos, uso de músicas, imagens, jogos pedagógicos e outros recursos que valorizem a experiência de vida de cada participante.
Ao final do processo, os alunos terão os mesmos direitos de qualquer estudante da rede municipal, incluindo cerimônia de formatura e encaminhamento para continuidade dos estudos na EJA, possibilitando a conclusão da escolaridade básica.

O médico Érimo Pereira, a secretária Especial de Ensino, Fernanda Romero, e o secretário Diogo Bastos no evento
Impacto direto no mercado de trabalho
Autoridades e profissionais envolvidos destacam que a falta de escolaridade é uma das principais barreiras para que pessoas em situação de rua consigam manter empregos estáveis. O projeto busca justamente romper esse ciclo, fortalecendo a autoestima e ampliando oportunidades.
A coordenadora do Centro Pop, Karine Viana, lembra que exemplos de superação já existem entre os acolhidos. Alguns conseguiram emprego e reorganizaram suas vidas graças ao nível de instrução que possuíam. Um dos casos citados é o de Nino Carlos Gomes Jardim, que vivia nas ruas e hoje trabalha na própria instituição, auxiliando outras pessoas a reconstruírem suas trajetórias.
Esperança para quem quer recomeçar
A expectativa também é grande entre os futuros alunos. Aos 41 anos, vivendo há anos nas ruas, Fábio Roberto de Almeida Azevedo recebeu simbolicamente um kit escolar durante a cerimônia e não escondeu a emoção. “Quero voltar a estudar para conseguir entrar no mercado de trabalho”, afirmou.
Rede de proteção e novos investimentos
O “Letras que Acolhem” integra a Rede de Mãos Dadas, estratégia municipal que articula diferentes secretarias para ampliar políticas públicas voltadas à população vulnerável. Além da alfabetização, o projeto prevê encaminhamentos socioassistenciais, acesso a serviços essenciais e fortalecimento de vínculos sociais.
O Centro Pop — espaço de passagem que oferece acolhimento, orientação e atendimento multidisciplinar — também passará a funcionar em uma nova sede, mais confortável e estruturada, ampliando a capacidade de atendimento.
Uma política pública de transformação social
Especialistas apontam que iniciativas como essa atuam na raiz da exclusão social. Dados da saúde pública indicam que grande parte da população em situação de rua enfrenta problemas como transtornos mentais, dependência química, desemprego e rompimento de vínculos familiares — fatores que tornam a educação um instrumento decisivo para reconstrução da autonomia.
Ao apostar na alfabetização como ferramenta de emancipação, a Prefeitura de Belford Roxo transforma um gesto pedagógico em uma política de direitos. Mais do que ensinar a ler e escrever, o projeto oferece a possibilidade concreta de recomeço — devolvendo cidadania, autoestima e perspectivas de futuro a quem por muito tempo foi invisibilizado.















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