Canetas emagrecedoras: quando o uso indevido vira ameaça à saúde

(*) Por Joé Gonçalves Sestello 

O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” tem crescido de forma preocupante nos últimos anos, configurando um potencial problema de saúde pública. Inicialmente desenvolvidas para o tratamento de condições específicas, como diabetes e obesidade – sempre mediante indicação médica criteriosa –, essas medicações passaram a ser utilizadas de forma indiscriminada por pessoas que buscam apenas a perda de alguns quilos, muitas vezes sem qualquer necessidade clínica.

Esse comportamento é impulsionado, em grande medida, pelas redes sociais, por padrões estéticos irreais e pela influência de amigos ou conhecidos. Cria-se, assim, uma falsa sensação de segurança ao observar relatos de uso sem efeitos colaterais aparentes. No entanto, cada organismo responde de maneira distinta, e esse tipo de comparação pode ser extremamente arriscado.

Entre os efeitos adversos mais frequentes estão os distúrbios gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal. Soma-se a isso o fato de que muitos usuários não mantêm uma alimentação equilibrada nem uma hidratação adequada. Em médio e longo prazo, pode ocorrer perda de massa muscular – e não apenas de gordura –, especialmente em indivíduos que não apresentam obesidade.

Um risco particularmente preocupante é a gastroparesia, caracterizada pela redução ou paralisação dos movimentos do estômago. Essa condição pode levar ao acúmulo de conteúdo gástrico e favorecer episódios de refluxo, sobretudo ao deitar. Em situações mais graves, há risco de broncoaspiração, quando o conteúdo gástrico atinge os pulmões, podendo desencadear quadros de pneumonia com potencial gravidade.

Pacientes em tratamento oncológico e idosos exigem atenção redobrada. Nesses casos, a indicação dessas medicações deve ser ainda mais criteriosa e necessariamente acompanhada por profissionais qualificados.

Embora mais rara, a hipoxemia – redução dos níveis de oxigênio no sangue – também pode ocorrer, especialmente em pacientes que utilizam múltiplas medicações sem o devido acompanhamento médico.

A desidratação é outro fator de risco relevante, pois potencializa os efeitos adversos e pode levar a complicações importantes, como alterações na função renal. Episódios frequentes de desidratação sobrecarregam os rins e podem comprometer seu funcionamento ao longo do tempo.

A literatura internacional já apresenta evidências dessas complicações. No Reino Unido, onde o uso dessas medicações é mais consolidado, há registros de casos de pancreatite – inflamação do pâncreas que pode variar de leve a grave e, em situações extremas, evoluir para óbito.

Outro risco relevante, ainda que menos frequente, é o desenvolvimento de trombose venosa profunda. A desidratação e as alterações fisiológicas podem favorecer a formação de coágulos, especialmente em indivíduos com predisposição ou comorbidades associadas.

Destaca-se também o perigo das medicações manipuladas adquiridas sem controle rigoroso. Autoridades sanitárias têm emitido alertas recorrentes sobre essa prática, reforçando que a automedicação pode desencadear consequências graves e, por vezes, irreversíveis.

Do ponto de vista emocional, há um aspecto frequentemente negligenciado. Muitos pacientes acreditam que a perda de peso resultará automaticamente em felicidade, aceitação social ou realização pessoal. Essa expectativa, no entanto, raramente se concretiza. Com a interrupção do uso e eventual reganho de peso, são comuns sentimentos de frustração, culpa e fracasso.

Diante desse cenário, é fundamental reforçar que o tratamento do excesso de peso deve ser individualizado, seguro e sempre conduzido por um profissional de saúde. Não existem soluções rápidas e isentas de risco. A orientação médica adequada, aliada a mudanças sustentáveis no estilo de vida, continua sendo o caminho mais seguro e eficaz para a promoção da saúde. É essencial que a sociedade esteja consciente: o uso indiscriminado das chamadas “canetas emagrecedoras” não representa um atalho inofensivo, mas uma prática que pode acarretar consequências sérias e duradouras.

(*) Joé Gonçalves Sestello é angiologista, cirurgião vascular e endovascular, e presidente da Unimed Nova Iguaçu