
(*) Fabrício Amaral
O Partido Democrático Trabalhista (PDT), sob a liderança de Carlos Lupi, atravessa mais uma crise que expõe não apenas fragilidades conjunturais, mas um problema mais profundo: o distanciamento de sua própria identidade histórica.
Em meio ao desgaste recente envolvendo o INSS — que já colocava o partido na defensiva —, uma peça de propaganda institucional conseguiu ampliar o ruído. Ao celebrar as mulheres do partido, o PDT cometeu uma omissão difícil de justificar: deixou de fora Cidinha Campos, um de seus quadros mais longevos e emblemáticos.
Não se trata de uma militante periférica. Cidinha Campos reúne credenciais raras: pioneira no jornalismo opinativo, ex-deputada federal e cinco vezes deputada estadual pelo Rio de Janeiro, com mais de quatro décadas de filiação partidária. Sua trajetória se confunde com momentos importantes da política fluminense e com a própria construção do brizolismo.
A exclusão, portanto, não soa como mero erro técnico. É, antes, sintoma de um partido que parece já não reconhecer seus próprios pilares.
A reação foi imediata. Militantes históricos manifestaram indignação, e a própria Cidinha, em vídeo divulgado no dia 27, foi contundente ao afirmar que o PDT atual está distante dos ideais construídos por Leonel Brizola. Mais do que isso, anunciou sua desfiliação — gesto simbólico que reforça um movimento já observado nos últimos anos: o afastamento de quadros tradicionais.
Não é a primeira crítica dirigida à condução de Lupi. Internamente e fora do partido, cresce a percepção de que o PDT teria abandonado sua vocação de protagonismo para atuar de forma subordinada ao Partido dos Trabalhadores (PT). A metáfora recorrente — a de um “vagão da locomotiva petista” — sintetiza essa leitura: um partido que, outrora combativo e independente, hoje orbitando sem autonomia.
Esse reposicionamento estratégico pode até ter racionalidade eleitoral no curto prazo, mas cobra um preço alto: a diluição da identidade política. E partidos, como se sabe, sobrevivem menos por cálculos táticos do que por coerência histórica.
O caso Cidinha Campos é emblemático porque revela uma desconexão entre direção e memória. Ao ignorar uma figura que representa a resistência, o enfrentamento e a comunicação direta com o eleitor — marcas do brizolismo —, o PDT não apenas comete uma gafe. Ele sinaliza que já não sabe exatamente o que preservar.
A crise atual, portanto, não é apenas de imagem. É de rumo.
Cidinha Campos, com sua trajetória de enfrentamento, história e relevância política, merece respeito. É uma figura que transcende mandatos e simboliza uma época em que o partido tinha identidade, voz e coragem.
Cidinha é grande. Já Lupi parece empenhado em reduzir o partido ao seu próprio tamanho: pequeno.
(*) Fabrício Amaral é Fabrício Amaral é radialista, bacharel em Produção Cultural e técnico em Logística, com especialização em mobilidade urbana. Natural de Nova Iguaçu, construiu sua trajetória unindo comunicação, cultura e organização urbana, com olhar atento às dinâmicas sociais da cidade. Atualmente, apresenta o programa “Falando de Samba”, na Rádio Tropical 830 AM, onde valoriza a cultura popular e dá voz aos personagens e histórias que movimentam o universo do samba. É também produtor do Podcast “BRIZOLA, que falta você faz”