Do Luto à Luta: Mães que Desafiam o Silêncio

Do Luto à Luta: Mães que Desafiam o Silêncio

Organizado pela Associação Fórum Grita Baixada (AFGB), este ato carrega o peso histórico dos 21 anos da Chacina da Baixada. Originalmente agendado para o fim do mês passado e adiado devido às fortes chuvas, o evento ressurge agora com uma carga emocional ainda mais profunda.

No próximo dia 06 de maio de 2026, a partir das 17 horas, a Praça dos Direitos Humanos, em Nova Iguaçu, deixará de ser apenas um espaço geográfico para se tornar o epicentro de uma mobilização que une famílias, artistas e movimentos sociais em um grito coletivo por memória e resistência.

Em meio às celebrações tradicionais do Dia das Mães, a Baixada Fluminense revela uma face dolorosa e, ao mesmo tempo, resiliente da maternidade: a das mulheres que precisaram transformar o luto em uma ferramenta política contra a violência de Estado e os desaparecimentos forçados que marcam a região.

O evento celebra a maternidade sob a ótica da luta, reconhecendo o árduo processo de superação dessas mulheres que, com o apoio do projeto de arteterapia desenvolvido em parceria entre a UFRRJ e a AFGB, encontraram formas de expressar o indizível. Através dessa ferramenta psicossocial, a dor da perda é ressignificada, permitindo que o trauma individual se transforme em força coletiva para denunciar as tragédias que assolam os territórios periféricos.

O Reencontro com a Memória

Organizado pela Associação Fórum Grita Baixada (AFGB), este ato carrega o peso histórico dos 21 anos da Chacina da Baixada. Originalmente agendado para o fim do mês passado e adiado devido às fortes chuvas, o evento ressurge agora com uma carga emocional ainda mais profunda. A proximidade com o Dia das Mães confere ao ato uma nova conotação: a de que o “não esquecimento” é, na verdade, o maior ato de amor que uma mãe pode dedicar a um filho cuja voz o Estado tentou silenciar.

Na noite de 31 de março de 2005, grupos de policiais militares percorreram os municípios de Nova Iguaçu e Queimados em uma sequência sistemática de execuções. Bares, padarias e pontos de ônibus foram alvejados. As vítimas — trabalhadores, jovens, pais e mães de família — não tiveram chance de reação, defesa ou fuga. O que ficou, além dos corpos, foi uma ferida que o tempo não cicatrizou: a da impunidade.

Era uma noite comum de quinta-feira. Pessoas voltavam do trabalho, crianças brincavam nas calçadas, bares começavam a encher nas esquinas da Baixada Fluminense. Ninguém sabia que aquelas horas seriam as últimas de 29 vidas — ceifadas em menos de três horas por homens fardados que transformaram ruas comuns em cenas de guerra.

Vozes que não podem ser esquecidas

Entre as mães que estarão presentes na Praça no dia 06 de maio, há quem conheça a dor da perda não uma, mas duas vezes. Renata Aguiar integra o coletivo de mães da Baixada Fluminense e já teve dois filhos assassinados — não na Chacina de 2005, mas nas muitas violências de Estado silenciosas que se repetem, semana após semana, nesta região:

“Nós precisamos insistir e perseverar para que isso não caia no esquecimento. Porque a nossa Baixada Fluminense, infelizmente, é muito invisibilizada. A nossa sociedade esquece das coisas muito rápido. E só quem fica com essa dor é a família. Então, a família fica doente, com traumas, memórias que não se apagam do ente querido que se foi nessa covardia. Queremos ser lembradas para que outras chacinas como essa não venham a acontecer.”

— Renata Aguiar, mãe e integrante do coletivo de mães da Baixada Fluminense

Essa dor coletiva tem também uma dimensão política, como articula Ilsimar de Jesus, da Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense:

“A resistência e a manutenção da memória são pilares fundamentais na luta pelos direitos humanos, especialmente em contextos marcados pela violência, pela desigualdade e pela negação sistemática da dignidade de determinados grupos sociais. Lembrar não é apenas um ato simbólico, é um gesto político. A memória preserva histórias que muitos tentaram apagar, denuncia injustiças e impede que crimes sejam naturalizados ou esquecidos. Resistir é transformar lembranças em ação, dor em denúncia e história em instrumento de mudança.”

— Ilsimar de Jesus, Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense

Memória que também é denúncia

Ao longo dessas décadas, familiares das vítimas têm se organizado para que a história não seja esquecida. A dor da perda deu origem a um movimento coletivo que denuncia a impunidade e reivindica políticas públicas que garantam o direito à vida, especialmente nas periferias. O ato deste ano reforça a importância da memória como ferramenta de justiça. Em um contexto em que a violência policial segue atingindo majoritariamente jovens negros e moradores de territórios periféricos.

“Enquanto houver mães que choram filhos assassinados pelo Estado e sem nenhuma resposta da Justiça, nossa obrigação é estar na rua, ocupar a praça, gritar o nome de cada vítima.” Adriano de Araujo, coordenador executivo da Associação Fórum Grita Baixada (AFGB)

A Baixada Fluminense segue sendo uma das regiões com maiores índices de letalidade policial no estado do Rio de Janeiro. Famílias de vítimas de desaparecimentos forçados, execuções e chacinas continuam sendo atendidas pela AFGB sem que o poder público ofereça respostas estruturais. A aprovação, em março de 2026, da lei que criminaliza o desaparecimento forçado no Brasil como crime hediondo — conquista histórica da qual a Associação Fórum Grita Baixada foi protagonista — é um passo. Mais um passo que chega tarde demais para as 29 famílias de 2005.

Arteterapia como apoio psicossocial.

Diante da inércia institucional e das marcas psicológicas profundas deixadas pela perda de seus filhos, construiu-se um projeto de arteterapia — uma iniciativa conjunta entre a UFRRJ e a AFGB  — uma ferramenta vital de apoio psicossocial a essas mães.

Entre 2023 e 2025 realizou-se vários encontros, começando com o bairro KM 32, em Nova Iguaçu, que contou com a participação de aproximadamente 12 mulheres. Buscou-se materializar símbolos que representassem níveis profundos do inconsciente. Para isso, foram utilizados trabalhos artísticos tais como colagem, desenho, pintura, modelagem, etc. Abandona-se, portanto, as preocupações com a estética ou com a técnica, próprias do fazer artístico, voltando-se para a expressão e comunicação criativa de sensações, emoções e impressões armazenadas no psiquismo.

Um dos objetivos é utilizar a expressão artística como meio de processar o trauma e fortalecer a identidade coletiva dessas mães. A união entre a experiência de base da AFGB e a pesquisa acadêmica da UFRRJ valida a dor dessas mulheres como um problema de saúde pública e direitos humanos.

“A diabetes e a hipertensão arterial são as mais comuns, mas há todo um conjunto de doenças que, associadas aos estados emocionais preexistentes, como o estresse pós-traumático, fazem explodir, de forma silenciosa e oculta o número de mães doentes. O que a visibilidade imediata da violência oculta é a invisibilidade dos efeitos devastadores na vida dos sobreviventes vinculados às vítimas”, explica Nádia Figueiredo, psicóloga e arteterapeuta que ajudou a coordenar o apoio terapêutico.

Programação

HorárioAtividade
17hAbertura e anúncio da exibição do filme Nossos Mortos Têm Voz
17h15Exibição do filme Nossos Mortos Têm Voz
Após a exibiçãoRoda de conversa com mães e familiares presentes — perguntas, respostas e interação com os participantes
Em seguidaApresentação coreográfica “Te desejo, vida”
Em seguidaLeitura dos nomes das 29 vítimas da Chacina da Baixada Fluminense e das demais vítimas da violência letal e dos desaparecimentos forçados na região
EncerramentoPoesia e convite para reunião presencial de avaliação e planejamento

Ficha técnica do ato

  
Data6 de maio de 2026 (quarta-feira)
HorárioA partir das 17h
LocalPraça dos Direitos Humanos — Nova Iguaçu/RJ
RealizaçãoAssociação Fórum Grita Baixada (AFGB)
OrganizaçãoRede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência de Estado da Baixada Fluminense · Rede de Educação Popular da Baixada Fluminense
Contato para imprensaFabio Leon: assessor de comunicação AFGB: (21) 98172-1973

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