
(*) Jorge Gama
A visita de Trump a Xi Jinping obedeceu a um ritual diplomático que, para ser plenamente compreendido, ainda precisará ser analisado em todos os seus detalhes. Ambos seguiram, com rigor, cuidados que remetem tanto a A Arte da Guerra quanto a O Príncipe. Nada pareceu esquecido ou aleatório. Todos os movimentos, executados em camadas sincronizadas, merecem observação atenta.
Nesses grandes acontecimentos, cada gesto aparentemente espontâneo pode conter um sinal enigmático, cuidadosamente dirigido. A ausência de Xi Jinping, por exemplo, pode ser interpretada como a atitude de quem compreendeu que o líder mundial de um modelo econômico vitorioso, porém centralizado e estatal, não poderia reverenciar os generais do maior exército da economia de mercado desembarcando em seu território.
Nada disso foi improvisado.
O coral entoando uma balada associada à campanha eleitoral do “general” daquele pelotão econômico atravessou aquele momento sem que quase ninguém percebesse o simbolismo do gesto. Logo na chegada, os imponentes e soberbos generais do mercado puderam perceber que Confúcio ainda permanece vivo.
A mistura de uma reverência sutil, embalada pelo som de uma campanha eleitoral vitoriosa, certamente mexeu com os cérebros visitantes, acostumados às turbulências aceleradas da inovação e à selvageria impiedosa do mercado. Nem mesmo a mais atualizada das inteligências artificiais poderia prever aquele desembarque.
O choque exigiu prudência nesse bailado diplomático que estava apenas começando.
O general que tradicionalmente utiliza gestos expansivos em suas missões, dentro e fora de seu território, naquela chegada — em que o dono da casa não estava presente — passou a controlar seus impulsos, sem demonstrar qualquer abalo pela ausência do anfitrião. Afinal, em seu lugar, veio sua música predileta.
Os generais da comitiva passaram então a utilizar suas próprias táticas pessoais, sustentadas por suas imagens culturais no Ocidente e nos mercados mundiais. O novo roteiro, embora não previsto, passou a ser sustentado pelos manuais do “Plano B”, sempre disponíveis quando a flexibilidade do pragmatismo pode substituir o rigor dos regimes estatais.
A visita terminou, mas, na realidade, ainda está começando. Será longa. E talvez estejamos muito distantes de seu verdadeiro encerramento — ou talvez ele jamais venha.
(*) Jorge Gama é Advogado e ex-Deputado Federal