
(*) Por Marcos Vinicius Cabral
Tirando a goleada sobre o Atlético Mineiro, pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro, quando o time de Leonardo Jardim precisou de apenas nove finalizações para marcar quatro gols, o que se vê no Flamengo é um roteiro repetitivo de desperdício, acomodação e falta de eficiência.
O problema já deixou de ser acaso. Não se trata mais de uma noite ruim ou de um detalhe isolado. Há anos o Flamengo convive com a mesma deficiência: cria, ronda a área, empilha posse de bola, mas falha justamente no fundamento mais importante do futebol: o gol.
Como transformar superioridade em vitória?
Falta treinamento?
Falta concentração?
Ou sobra arrogância em um elenco que parece acreditar que o nome na camisa resolve sozinho?
No Flamengo atual, muitas vezes a impressão é de um time anestesiado pela própria fama. Domina partidas, troca passes, controla estatísticas, mas não impõe a fome competitiva que marcou os grandes times da história rubro-negra.
As equipes de 1981 e 2019 tinham talento de sobra, mas também tinham ambição, intensidade e inconformismo.
Quando a técnica não bastava, a raça aparecia. Hoje, frequentemente, parece faltar justamente essa capacidade de reagir diante das dificuldades.
E o cenário se torna ainda mais preocupante quando se olha para os números financeiros.
Segundo o Transfermarkt, o elenco rubro-negro é o mais valioso da América do Sul, avaliado em cerca de 192 milhões de euros – aproximadamente R$ 1,28 bilhão.
É um abismo financeiro em relação a boa parte dos adversários do futebol brasileiro.
O contraste fica evidente na comparação com o Athletico Paranaense, adversário da próxima rodada, na Arena da Baixada. O elenco paranaense está avaliado em cerca de 47 milhões de euros, valor quase cinco vezes inferior ao do Flamengo. Ainda assim, dentro de campo, muitas vezes a diferença simplesmente desaparece.
E esse talvez seja o retrato mais incômodo do atual Flamengo: um time bilionário que joga, em diversos momentos, como uma equipe comum. Porque no futebol, ao contrário do que parte do elenco parece acreditar, folha salarial não ganha partida, investimento não faz gol e favoritismo não entra em campo sozinho.
(*) Marcos Vinicius Cabral é jornalista com passagens pelo O São Gonçalo, A Tribuna, Coluna do Fla e o POVO. Ao lado de Sergio Pugliese, é também autor do livro sobre o Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira; além disso, escreve O futebol é uma grande mentira, biografia de Paulo Angioni, um dos maiores supervisor futebol brasileiro