
(*) Por Geraldo Perelo
Durante décadas, o futebol brasileiro foi muito mais do que um esporte. Era um símbolo nacional, uma identidade cultural e uma das maiores razões de orgulho do povo. Vestir a camisa da Seleção significava carregar nos ombros o sonho de mais de milhões de brasileiros. Hoje, infelizmente, essa imagem parece cada vez mais distante.
Já são 28 anos sem a conquista de uma Copa do Mundo. Para um país que construiu sua história como a maior potência do futebol, esse jejum representa muito mais do que uma sequência de derrotas. É o retrato de um declínio que poucos imaginavam testemunhar.
O Brasil que encantava o mundo com a genialidade de Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Zico, Romário e Ronaldo deu lugar a uma geração que, para muitos torcedores, parece mais preocupada com a própria imagem do que com a grandeza da camisa que veste. Redes sociais, contratos milionários, campanhas publicitárias, carros de luxo, joias e estilos de vida extravagantes frequentemente ocupam mais espaço do que o compromisso demonstrado dentro das quatro linhas.
Ninguém questiona o direito de um atleta desfrutar do sucesso conquistado com seu talento. O problema surge quando o glamour parece superar a dedicação, quando a vaidade se sobrepõe ao espírito coletivo e quando o marketing passa a ter mais importância do que o desempenho esportivo.
A Seleção Brasileira já foi temida por sua criatividade, ousadia e talento natural. Hoje, muitas vezes, transmite insegurança, falta de identidade e uma preocupante incapacidade de decidir partidas importantes. O futebol brasileiro, que durante décadas foi referência mundial, tornou-se, em diversas ocasiões, apenas mais uma equipe entre tantas outras.
Na época de Pelé e Garrincha, jogar pela Seleção parecia representar uma missão. Defender as cores do Brasil era motivo de orgulho e honra. Havia uma conexão quase sagrada entre os jogadores e a torcida. As vitórias eram comemoradas como conquistas nacionais, e até as derrotas eram enfrentadas com dignidade e entrega.
É claro que o futebol mudou. Tornou-se um negócio bilionário, globalizado e extremamente competitivo. Os atletas começam suas carreiras muito cedo na Europa, vivem outra realidade cultural e enfrentam pressões diferentes. Mas isso não explica tudo. O que parece faltar, aos olhos de muitos brasileiros, é justamente aquilo que nunca deveria desaparecer: o comprometimento absoluto com a camisa da Seleção.
O torcedor não exige vitórias em todos os jogos. O esporte sempre reserva espaço para o imprevisível. O que o brasileiro espera é entrega, raça, personalidade e respeito pela história construída por gerações que transformaram o Brasil na maior referência do futebol mundial.
Talvez seja exagero afirmar que a decadência é irreversível. O futebol já provou inúmeras vezes sua capacidade de se reinventar. Mas é impossível ignorar os sinais de alerta. O distanciamento entre Seleção e torcida aumenta a cada competição, enquanto o encanto que fazia o mundo parar para assistir ao Brasil parece desaparecer lentamente.
O futebol brasileiro não perdeu apenas títulos. Corremos o risco de perder algo ainda mais valioso: sua identidade.
Enquanto a camisa amarela deixar de representar orgulho, responsabilidade e paixão para se tornar apenas mais um item de marketing, continuaremos acumulando frustrações e vivendo da lembrança de um passado glorioso.
O Brasil continua sendo o país do futebol na memória de milhões. Mas, para voltar a sê-lo dentro de campo, será preciso recuperar valores que nenhuma fortuna é capaz de comprar: humildade, comprometimento, espírito coletivo e amor pela camisa que um dia foi a mais respeitada do planeta.
(*) Geraldo Perelo é jornalista e editor do GPBaixadanews.com