A epidemia silenciosa que ameaça a sustentabilidade da saúde brasileira

Por Joé Sestello

Enquanto o debate público costuma se concentrar em epidemias e emergências sanitárias de grande repercussão, o Brasil enfrenta uma ameaça ainda maior e mais duradoura: o avanço das doenças crônicas não transmissíveis. Diabetes, hipertensão, obesidade, doenças cardiovasculares e respiratórias já respondem pela maior parte das mortes e dos gastos em saúde no país. Trata-se de uma epidemia silenciosa, mas de enorme impacto social, econômico e assistencial.

Os dados são contundentes. Segundo o Ministério da Saúde, por meio do Vigitel (Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), o excesso de peso e a obesidade cresceram de forma consistente nas últimas duas décadas, atingindo parcela significativa da população adulta. Ao mesmo tempo, o envelhecimento dos brasileiros amplia a incidência dessas enfermidades e aumenta a demanda por tratamentos contínuos e cada vez mais complexos.

O problema, entretanto, não está apenas no crescimento dessas doenças. A questão central é que nosso sistema de saúde, tanto público quanto privado, ainda opera de maneira excessivamente fragmentada. Em vez de acompanhar o paciente ao longo de sua jornada de cuidados, muitas vezes atuamos apenas quando a doença já se agravou. É um modelo que privilegia a reação, quando deveríamos investir muito mais na prevenção e na coordenação do cuidado.

Essa desarticulação tem consequências conhecidas: aumento das internações evitáveis, repetição de exames, desperdício de recursos e pior qualidade de vida para os pacientes. Em um cenário de recursos limitados e demanda crescente, insistir nesse modelo não é apenas ineficiente; é insustentável.

Felizmente, existem experiências que mostram um caminho diferente. Estados da Região Sul do país vêm demonstrando, há anos, a importância de fortalecer a atenção primária e integrar os diferentes níveis de assistência. O acompanhamento contínuo dos pacientes, a estratificação de riscos e a atuação preventiva têm produzido resultados relevantes na gestão das condições crônicas.

O estado de São Paulo também se destaca por iniciativas que colocam a coordenação do cuidado no centro da estratégia assistencial. Municípios e organizações de saúde que adotaram modelos mais integrados conseguiram reduzir complicações, melhorar indicadores clínicos e utilizar os recursos de forma mais racional.

Outro exemplo que precisa ser citado é o do município do Rio de Janeiro. Mesmo extenso, a cidade do Rio conseguiu implementar protocolos na atenção primária sintonizados com os programas do governo federal, trazendo um impacto muito positivo no cuidado da população. A migração de pacientes oriundos de outros municípios – que não conseguiram se estruturar adequadamente – para a capital fluminense, evidencia a assertividade das iniciativas na área da saúde desenvolvidas pelo gestor local.

Esses modelos revelam uma verdade simples: a saúde do século XXI não será construída apenas com mais hospitais, mais leitos ou mais tecnologia. Tudo isso é importante, mas insuficiente. O verdadeiro diferencial está na capacidade de acompanhar as pessoas antes que elas adoeçam gravemente, promovendo hábitos saudáveis, identificando riscos precocemente e garantindo continuidade no tratamento.

Na saúde suplementar, essa mudança de paradigma já não é uma escolha, mas uma necessidade. Operadoras comprometidas com a sustentabilidade do sistema estão investindo em programas de prevenção, monitoramento de pacientes crônicos e atenção coordenada. O foco deixou de ser exclusivamente a doença para contemplar o cuidado integral da pessoa.

Na Unimed Nova Iguaçu temos cases que corroboram com a importância da estratégia preventiva. Aprovamos recentemente pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) nosso Programa Enfermeira Navegadora, iniciativa voltada ao rastreio e à detecção precoce do câncer de mama. Mais de 10 mil mulheres estão sendo assistidas pela ação, que realiza busca ativa de beneficiárias entre 40 e 69 anos que não tenham realizado, nos últimos 12 meses, consultas com ginecologista ou mastologista e exames preventivos, como mamografia, preventivo, ultrassonografia de mama e ultrassonografia transvaginal. Além de identificá-las, nosso time auxilia na marcação de consultas e exames, caso haja alguma dificuldade. Esse monitoramento é contínuo e irá evoluir para outras linhas de cuidado. Isso é prevenção!

E temos planos para avançar ainda mais em nossa região de cobertura, firmando, inclusive, parcerias com as prefeituras locais oferecendo, a título de exemplo, suporte de recursos humanos para ações de grande relevância e abrangência, como as campanhas de vacinação.

Como dirigente de uma cooperativa médica comprometida com a qualidade assistencial, acredito que o enfrentamento da epidemia de doenças crônicas exige uma mobilização ampla. Gestores, profissionais de saúde, operadoras, setor público e sociedade precisam compreender que o maior desafio da saúde brasileira não está apenas em ampliar estruturas, mas em reorganizar a forma como cuidamos das pessoas.

A boa notícia é que conhecemos os caminhos. Os exemplos bem-sucedidos existem. As evidências também. O que falta é transformar esse conhecimento em prioridade nacional. Quanto mais adiarmos essa discussão, maior será o custo humano e financeiro para toda a sociedade.

A saúde brasileira precisa avançar da fragmentação para a integração, do tratamento para a prevenção e da doença para o cuidado. Esse é o desafio do presente, e a condição indispensável para garantir um futuro mais saudável e sustentável para todos.

(*) Joé Sestello é angiologista, cirurgião vascular e endovascular, e diretor-presidente da Unimed Nova Iguaçu