
(*) Por Jorge Gama
No último dia 16 de agosto, teve início, em todo o território nacional, a temporada de caça aos eleitores. Milhares de candidatos estão agora autorizados a utilizar todo o seu arsenal para capturar o voto.
O eleitor, que deveria usar sua arma mais poderosa numa democracia — o voto — para afastar aqueles que vêm corroendo nossos recursos, comprometendo nossa tranquilidade e se apropriando do futuro das próximas gerações, muitas vezes transforma os próprios algozes em heróis que irão, supostamente, salvar a pátria que ajudaram a dilapidar.
Há casos em que, mesmo reconhecendo o currículo nefasto de determinado candidato, o eleitor ainda assim vota, apoia e trabalha em seu favor. Em alguns casos, a devoção é tanta que o eleitor parece acreditar mais no candidato do que em si próprio. Nesse momento, a caça implora ao caçador para ser abatida.
Na temporada de caça, o caçador revela seus melhores truques e ardis. O paraíso volta a ser prometido. Todas as armadilhas de sedução são apresentadas em um clima de festa, cores, discursos e slogans, enquanto a vítima sabe que poderá ficar aprisionada por mais quatro anos — e, ainda assim, facilita a operação.
As promessas se repetem como se a memória do eleitor fosse apagada a cada eleição. Obras, empregos, saúde, segurança, educação, desenvolvimento e prosperidade reaparecem no cardápio eleitoral, embora muitas dessas promessas jamais tenham chegado à mesa. É um cardápio que nunca foi — e talvez nunca seja — servido.
E quando faltam propostas, sobram acusações. Em vez de discutir o que pretendem fazer, muitos candidatos preferem explicar por que o adversário não deveria ser eleito. A campanha transforma-se, então, numa sucessão de ataques, denúncias, acusações mútuas e disputas de narrativas, enquanto as questões realmente importantes permanecem à espera de respostas.
O eleitor deveria perguntar: qual é a proposta? Quanto vai custar? De onde virão os recursos? Qual será o prazo? Quem será beneficiado? E, principalmente, por que devemos acreditar que desta vez será diferente?
Mas perguntas como essas parecem perder espaço para a propaganda, para o espetáculo e para a emoção. A política, que deveria ser a arte de escolher caminhos para o futuro, corre o risco de transformar-se apenas na arte de convencer o eleitor até o dia da eleição.
O resultado final dessa partida, em que a jogada e o jogador muitas vezes parecem conhecer o resultado antes mesmo de o jogo começar, é mais uma peça desse teatro do absurdo em que é preciso mudar para continuar sempre a mesma coisa.
Talvez a verdadeira temporada de caça não seja aquela em que os candidatos caçam os eleitores. É aquela em que os eleitores, finalmente conscientes da força que possuem, decidam caçar as promessas vazias, os discursos sem conteúdo e a velha política que reaparece a cada eleição com uma nova embalagem e o mesmo produto.
(*) Jorge Gama Advogado e ex-Deputado Federal
