Saneamento e urbanização: prevenir também é cuidar da saúde

(*) Por José Sestello

Quando falamos em saneamento básico, drenagem e urbanização, não estamos falando apenas de obras. Estamos falando de saúde, segurança, dignidade e qualidade de vida. Como médico, conheço de perto os impactos que a precariedade da infraestrutura urbana pode produzir sobre a saúde da população. E, como gestor, acredito que precisamos avançar de uma lógica de resposta às emergências para uma cultura permanente de prevenção.

A experiência recente do Rio de Janeiro mostra que é possível tratar eventos climáticos extremos como uma questão de planejamento urbano, e não apenas como uma emergência. No Plano Verão 2024/2025, a Prefeitura informou investimentos de
R$ 3,3 bilhões em quatro anos, distribuídos em 488 ações de prevenção, manutenção, resposta e tecnologia. Entre elas estão obras de drenagem e contenção de encostas, desassoreamento de rios, limpeza de galerias, monitoramento meteorológico e
protocolos para chuvas intensas e ondas de calor.

Na Baixada Fluminense, há experiências que apontam na mesma direção. Em Nova Iguaçu, obras no bairro Cabuçu combinaram drenagem pluvial, pavimentação e ligações domiciliares de esgoto. Em Queimados, intervenções de urbanização reúnem
drenagem, esgotamento sanitário, água potável e pavimentação. Em São João de Meriti, obras de drenagem e saneamento vêm sendo realizadas em áreas historicamente afetadas por alagamentos.

Outro exemplo importante está em Mesquita. Em 2026, o município informou ter mapeado 9.401 dispositivos da rede de drenagem, entre bueiros e bocas de lobo, utilizando um sistema digital e georreferenciado para orientar a manutenção
preventiva. É um exemplo de como informação, planejamento e tecnologia podem ajudar o gestor a agir antes que a chuva transforme um problema conhecido em uma crise.

Essas iniciativas precisam, porém, deixar de ser pontuais. A Baixada é uma região integrada, e rios, canais, sistemas de drenagem e áreas de risco não respeitam limites municipais. Por isso, os gestores públicos precisam trabalhar de forma coordenada, com planejamento de longo prazo, metas mensuráveis, integração entre municípios e Estado e investimentos contínuos em infraestrutura.

O saneamento deve estar no centro dessa agenda. Dados do IBGE mostram a relação direta entre saneamento, meio ambiente e saúde: entre 2008 e 2019, doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado responderam por cerca de 0,9% dos óbitos no país. Estudos avaliados pelo BNDES também encontraram redução de internações após a implantação de projetos de saneamento.

A pergunta, portanto, não deveria ser quanto custa investir em saneamento, drenagem e urbanização. Deveríamos perguntar quanto custa não investir. Cada real destinado à prevenção pode significar menos alagamentos, menos famílias expostas a doenças,
menos perdas materiais e, também, menor pressão futura sobre o sistema de saúde.

Urbanizar uma cidade é cuidar das pessoas. E prevenir, nesse caso, é uma das formas mais concretas de promover saúde.

(*) Joé Sestello, é médico angiologista, cirurgião vascular e endovascular Diretor-Presidente da Unimed Nova Iguaçu