Saúde na Baixada: o desafio de aproximar o cuidado de quem mais precisa

(*) Por Joé Sestello

Falar sobre saúde na Baixada Fluminense é falar sobre acesso. Não basta garantir que o cidadão tenha direito ao atendimento: é preciso que ele consiga chegar ao serviço, realizar exames, consultar um especialista, iniciar o tratamento e dar continuidade ao cuidado sem que a distância seja mais uma barreira.

A experiência do município do Rio de Janeiro mostra que avanços importantes são possíveis. A ampliação da Atenção Primária (com mais de 80% de cobertura), o fortalecimento das equipes de Saúde da Família (98% das equipes completas), a transparência da regulação e a criação de centros especializados são iniciativas que ajudam a organizar o cuidado e aproximar o serviço da população.

Todavia a Baixada também tem bons exemplos. Relatórios do Ministério da Saúde mostram que no município de Nilópolis a cobertura potencial da Atenção Primária à Saúde alcança 175.000 pessoas, correspondente a uma cobertura de 112,54% (dados e-Gestor, junho/2026). O município de Mesquita também se destaca com 100% de cobertura da APS e, em 2025, recebeu, inclusive, certificação do governo federal por boas práticas rumo à eliminação da transmissão vertical do HIV, reconhecimento que demonstra a capacidade de um município da região de estruturar políticas de prevenção e cuidado.

Esses resultados provam que a região não pode ser vista apenas como território dependente da capital. Existem experiências locais que precisam ser reconhecidas, integradas e ampliadas.

O grande desafio está justamente em transformar essa excelente performance de poucos municípios em uma rede regional de saúde. Um morador não deveria precisar percorrer dezenas de quilômetros até o Rio de Janeiro para ter acesso a um especialista, realizar um exame ou dar continuidade a um tratamento.

Isso exige planejamento. A própria lógica do SUS prevê a regionalização como instrumento para organizar os fluxos, definir responsabilidades e garantir acesso integral. O Planejamento Regional Integrado deve considerar, inclusive, a organização dos serviços de alta complexidade em escala macrorregional.

No entanto, ainda convivemos com um Estado heterogêneo, no qual a oferta de serviços é concentrada territorialmente e nem sempre segue uma lógica de rede construída a partir das necessidades epidemiológicas da população. Pactuações que deveriam estar cada vez mais próximas da técnica, dos indicadores e da necessidade assistencial não podem ser capturadas por interesses político-partidários.

A alta complexidade precisa ser planejada onde houver escala, capacidade instalada e qualidade, mas isso não significa concentrá-la indefinidamente na capital. É necessário definir polos regionais capazes de atender a população com eficiência, reduzindo deslocamentos e a pressão sobre os grandes centros.

Também precisamos enfrentar as filas de consultas, exames e cirurgias. Regulação transparente, prontuários integrados, critérios clínicos de prioridade e maior capacidade regional são fundamentais para reduzir o tempo de espera.

Tudo começa, entretanto, pela Atenção Primária. Uma rede básica forte identifica riscos, acompanha doenças crônicas, promove prevenção e evita que problemas simples evoluam para situações que exigem atendimento especializado ou hospitalar.

A Baixada tem municípios capazes de produzir bons resultados. O próximo passo é transformar essas experiências em política regional permanente, com planejamento, integração entre municípios e decisões baseadas em evidências.

Saúde de qualidade não pode depender do CEP. O desafio é fazer com que o lugar onde uma pessoa mora determine cada vez menos a qualidade e a velocidade do cuidado que ela recebe.

(*) Joé Sestello é angiologista, cirurgião vascular e endovascular, e diretor-presidente da Unimed Nova Iguaçu