Lula transforma ato no Rio em apelo pela reconstrução do Estado e declara apoio total a Eduardo Paes

Lula transforma ato no Rio em apelo pela reconstrução do Estado e declara apoio total a Eduardo Paes

Presidente afirma que o Rio precisa deixar as páginas policiais e voltar ao centro da política nacional, defende investimentos em educação e segurança e pede união em torno de Paes, Benedita e Pedro Paulo

Por Geraldo Perelo

Em um estádio Moça Bonita lotado, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou o lançamento político de sua campanha no estado em um discurso de forte apelo pela reconstrução do Rio, com críticas à violência, defesa da educação e um recado direto ao eleitor: é preciso recolocar o estado no centro da agenda política nacional.

Acompanhado da primeira-dama Janja, Lula chegou ao estádio ao lado do ex-prefeito Eduardo Paes, candidato ao governo do estado, e de sua esposa, Cristine Paes; do prefeito Eduardo Cavaliere e de Vitória Cavaliere; além dos candidatos ao Senado Benedita da Silva e Pedro Paulo, acompanhados de seus familiares.

Logo no início de sua fala, Lula resumiu sua visão para o Rio: o estado precisa “sair das páginas de jornais, das páginas policiais, e voltar para as páginas políticas”. E afirmou que estará “empenhado de corpo e alma” para que, caso seja eleito governador, Eduardo Paes dê continuidade ao trabalho que o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, vem realizando interinamente à frente do Palácio Guanabara.

Em tom religioso, Lula atribuiu a Couto uma espécie de missão providencial diante da crise fluminense. Disse que, quando tudo parecia perdido, Deus teria colocado o magistrado no caminho do Rio para “moralizar esse estado”. Segundo o presidente, Couto estaria promovendo uma “limpeza” que deverá ser mantida por Paes.

“Deus faz acontecer na nossa vida aquilo que não estava previsto”, afirmou Lula, relacionando sua própria trajetória política à ideia de superação do impossível.

O presidente também voltou a falar sobre sua candidatura à Presidência da República. Disse que não disputa novamente o cargo por uma vontade exclusivamente pessoal, mas porque se considera convocado pelo povo brasileiro.

“O meu candidato não sou eu, o meu candidato são vocês, o povo brasileiro”, declarou.

Lula recordou a infância pobre no Nordeste, a migração da família para São Paulo, os trabalhos que exerceu e sua formação como torneiro mecânico antes de chegar à Presidência da República. Para ele, sua trajetória representa a possibilidade de milhões de brasileiros que historicamente tiveram poucas oportunidades.

“Deus criou vocês e vocês me criaram”, afirmou.

A inclusão social voltou a ocupar espaço central no discurso. Lula questionou o histórico de investimentos em educação e oportunidades para a população pobre, o Nordeste e as periferias. Disse que seu objetivo é combater a invisibilidade de uma parcela significativa da população brasileira.

“Vocês não são invisíveis e é por isso que eu quero o quarto mandato”, anunciou.

Educação contra a violência

Um dos momentos de maior impacto ocorreu quando Lula comparou os custos da educação superior aos gastos com o sistema prisional. Ao citar uma visita à Universidade Federal do ABC, contou que conheceu estudantes de Engenharia Espacial e mencionou o custo anual de formação de cada aluno.

Em seguida, comparou esse valor ao custo de manutenção de presos em diferentes unidades prisionais e defendeu uma mudança de prioridade nas políticas públicas.

“Fica muito mais barato a gente investir em educação. Ou a gente investe em educação hoje, investe em escola ou vai ter que investir em cadeia amanhã. E eu prefiro investir em escola”, disse.

Para Lula, a desigualdade educacional é resultado de uma visão histórica segundo a qual pobres e negros não precisariam estudar. Ele afirmou que sua proposta é ampliar a igualdade de oportunidades sem retirar direitos de ninguém.

Segurança pública no centro da agenda

A crise da segurança pública no Rio também foi um dos principais temas do discurso. Lula defendeu maior participação do governo federal no enfrentamento ao crime organizado e afirmou que encaminhou uma PEC sobre segurança pública.

Segundo o presidente, a proposta poderá ampliar a atuação da União e fortalecer as estruturas federais de segurança.

Lula disse que o objetivo não é promover operações marcadas por mortes e pirotecnia, mas prender criminosos e recuperar territórios dominados pela violência.

“Vamos prendê-los e dizer que a rua, a padaria, a escola é do povo, não é dos bandidos”, afirmou.

“Eduardo Paes é uma necessidade para o povo do Rio”

O apoio a Eduardo Paes foi um dos pontos mais contundentes do evento. Lula afirmou que a relação entre os dois não é apenas de amizade, mas representa, em sua avaliação, uma escolha política necessária para o futuro do estado.

“A gente não escolhe irmão, a gente não escolhe pai, a gente não escolhe mãe; agora, amigo a gente escolhe”, disse.

Na sequência, declarou:

“Eduardo Paes não é apenas o meu amigo, ele é uma necessidade para o povo do Rio de Janeiro.”

Lula também afirmou duvidar que o Rio tenha tido, em sua história, um prefeito da qualidade de Paes e pediu aos eleitores que deixem de lado divergências partidárias no momento da escolha para o governo estadual.

Ao defender Paes, o presidente associou a candidatura à tarefa de recuperar a autoestima do Rio, sua imagem internacional e a capacidade de articulação do estado com o governo federal.

Recado aos candidatos ao Senado

Lula também pediu votos para Benedita da Silva e Pedro Paulo, que disputam as duas vagas do Rio no Senado.

Ao defender Pedro Paulo, afirmou que o deputado federal merece sua confiança e pediu apoio para a formação de uma bancada capaz de atuar em conjunto com o futuro governo estadual.

Benedita, por sua vez, afirmou que ela e Pedro Paulo pretendem trabalhar pela integração entre as diferentes realidades do estado — das favelas e periferias ao asfalto — e pela ampliação de oportunidades para mulheres negras, trabalhadoras, domésticas e toda a população fluminense.

Cavaliere: “lado certo da história”

Anfitrião do evento, o prefeito Eduardo Cavaliere deu as boas-vindas a Lula e destacou o simbolismo da escolha de Bangu para o lançamento político.

Segundo ele, o estádio Moça Bonita, ligado à história operária da antiga Fábrica Bangu, representava o lugar adequado para receber o presidente, Janja e Eduardo Paes.

Cavaliere também evocou a memória do futebol e da história política brasileira ao lembrar a passagem do técnico João Saldanha pelo estádio antes da Copa do Mundo de 1970.

“Se existe um sentimento que nos une, que nos dá certeza do que a gente está fazendo aqui hoje, é a certeza de estar do lado certo da história”, afirmou.

Janja destaca protagonismo das mulheres

Janja levou ao palco uma mensagem voltada principalmente às mulheres. Classificou o Rio como uma “terra de mulheres fortes e inspiradoras” e homenageou Benedita da Silva, além de lembrar figuras como Elza Soares e Marielle Franco.

Para a primeira-dama, as mulheres tiveram papel decisivo na eleição de Lula em 2022 e deverão novamente exercer influência fundamental na definição dos rumos do país.

Um ato político com identidade carioca

Com cerca de duas horas de duração, o evento também apostou na identidade cultural do Rio. O público acompanhou uma apresentação do grupo Passinho Carioca, ao som de uma adaptação de “Rap do Silva”, com referências à trajetória de Lula e às críticas sociais presentes no funk carioca.

O Hino Nacional Brasileiro foi interpretado pela cantora Teresa Cristina.

Entre discursos, música e manifestações de apoio, Lula encerrou o encontro reforçando a mensagem que marcou sua passagem pelo Rio: o estado precisa superar a crise, recuperar sua autoestima e voltar a ocupar espaço de destaque na política nacional.

E, para o presidente, essa reconstrução passa por uma aliança política que tem Eduardo Paes como protagonista no estado e o próprio Lula como candidato à Presidência.

“O que está em jogo é escolher o que será melhor para o Rio de Janeiro.”