Feira da Mirandela: o coração que pulsa aos domingos e guarda a alma de Nilópolis

Feira da Mirandela: o coração que pulsa aos domingos e guarda a alma de Nilópolis

Mais do que um espaço de compras, a Feira da Mirandela é o coração pulsante de Nilópolis. Há mais de um século, ela reúne gerações, preserva tradições, movimenta a economia e fortalece os laços de uma comunidade que se reconhece em cada barraca, em cada rosto conhecido e em cada história compartilhada.

Por Geraldo Perelo

Por mais de um século, ela viu gerações nascerem, crescerem e envelhecerem. Assistiu ao progresso da cidade, ouviu histórias de amor, acompanhou despedidas, celebrou conquistas e transformou trabalho em dignidade. Aos domingos, quando o sol desperta sobre Nilópolis, ela renasce mais uma vez. Não como uma simples feira livre, mas como um organismo vivo, pulsante, capaz de alimentar o corpo, a memória e a identidade de um povo.

A Feira Livre da Estrada Mirandela é uma senhora elegante de mais de cem anos. Octogenária em espírito, centenária em história, dona de uma artéria urbana com cerca de 1.200 metros de extensão e mais de 400 barracas. Todos os domingos, aproximadamente 10 mil pessoas percorrem seu corredor de cores, aromas, sabores e afetos, garante o Coordenador da Ordem Pública, Arnô Lopes.

Entre a Avenida Getúlio Vargas e a Rua Roldão Gonçalves, a Mirandela não é apenas uma rua ocupada por comerciantes. Ela é um território simbólico onde Nilópolis se encontra consigo mesma.

Ali, o cheiro do pastel recém-frito se mistura ao perfume das flores. O som dos feirantes anunciando promoções encontra o batuque distante do samba. As famílias caminham lado a lado enquanto crianças observam fascinadas montanhas de frutas coloridas. É uma experiência que vai muito além da compra e da venda.

Em 2025, o Estado do Rio de Janeiro reconheceu oficialmente aquilo que os nilopolitanos já sabiam há décadas: a Feira da Mirandela tornou-se Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado.

Autor da iniciativa, o deputado estadual Rafael Nobre definiu a feira como um testemunho vivo da evolução econômica e cultural da cidade.

— A feira não é apenas um local de comércio. Ela representa a determinação dos primeiros vendedores ambulantes, a força do empreendedorismo popular e a capacidade da comunidade de preservar suas tradições — destacou o parlamentar.

Mas talvez nenhuma lei consiga traduzir completamente aquilo que acontece ali todos os domingos.

Uma vida inteira entre frutas, amigos e lembranças

Na esquina da Rua João Pessoa, entre caixas de frutas e cumprimentos carinhosos, está uma das personagens mais emblemáticas da história da feira.

Aos 79 anos, Vera Lúcia Teixeira (foto) é considerada a feirante mais antiga da Mirandela.

Seu olhar guarda décadas de histórias.

— Eu tinha apenas sete anos quando comecei a trabalhar aqui com meu pai. Cresci nesta feira. Fiz amigos, construí minha família, criei meus filhos trabalhando aqui. Isso aqui é a minha vida. Se eu ficar em casa sem vir para a feira, fico doente — conta, emocionada.

Enquanto fala, clientes antigos a interrompem para cumprimentá-la pelo nome. Alguns compram frutas. Outros param apenas para conversar.

Porque na Mirandela, relações valem tanto quanto mercadorias.

O domingo que define o que é ser nilopolitano

Para o secretário municipal de Turismo, Eventos e Juventude, Leonardo Monteiro, a feira ajuda a explicar a própria identidade da cidade.

— O nilopolitano tem a semana inteira para fazer compras, mas deixa para resolver tudo no domingo porque quer estar na feira. Quer encontrar pessoas, conversar, tomar um caldo de cana, comer um pastel. Isso faz parte da nossa cultura.

Leonardo observa que a Mirandela é um espaço multifuncional.

No mesmo chão onde são montadas centenas de barracas, acontecem procissões religiosas, ensaios da Beija-Flor, celebrações populares e eventos culturais.

— O valor da Mirandela não está apenas no que ela vende. Está no significado que ela tem para as pessoas. Ela ajuda o nilopolitano a compreender sua própria cidade — afirma.

Para o secretário Leonardo Monteiro, a feira ajuda a explicar a própria identidade da cidade

O portal da cidade

Quem caminha pela feira inevitavelmente é atraído pelo aroma do dendê.

É ali que trabalha Marcele Garber, conhecida por todos como a Baiana do Acarajé.

Patrimônio Cultural Imaterial de Nilópolis desde 2014, ela transformou sua barraca em um dos pontos mais tradicionais da feira.

— A Mirandela é o nosso portal. É onde mostramos nosso trabalho e encontramos nossos clientes. Há 25 anos fomos acolhidos por esse povo maravilhoso e seguimos aqui, graças a Deus — diz.

Ao seu redor, filhos, clientes e amigos ajudam a compor uma cena que parece atravessar gerações.

Cada acarajé servido carrega não apenas sabor, mas também memória e pertencimento.

Baiana do acarajé: A Mirandela é o nosso portal. É onde mostramos nosso trabalho e encontramos nossos clientes.

O sustento de milhares de famílias

Para muitos, a feira representa muito mais do que tradição.

Ela é sobrevivência.

André Mendes de Oliveira, de 47 anos, vende carne suína desde a infância.

— Fui criado aqui. Aprendi tudo com meu pai. Hoje sustento minha família, tenho meu filho na faculdade e devo tudo isso à feira. Amo o que faço.

André Mendes vende carne suína na feira da Mirandela desde garoto. “É onde sustento minha família”, diz.

A mesma gratidão é compartilhada por Rogério Araújo.

Aos 48 anos, ele começou aos 18 como funcionário em uma barraca de legumes.

Hoje é proprietário do negócio.

— A feira é minha vida. Trabalho com minha esposa, meu filho, minha irmã e ainda gero empregos para outras pessoas. Tudo o que conquistei veio daqui.

Histórias semelhantes se repetem ao longo dos mais de mil metros da Mirandela.

Cada barraca representa uma família.

Cada banca aberta é uma história de luta.


Rogério Araújo, hoje com 48 anos, começou aos 18 vendendo legumes na feira como empregado

O homem que vende água de coco e coleciona amizades

Poucos rostos são tão conhecidos quanto o de Delço Bruno Ramos.

Para os clientes, ele é simplesmente “Tim do Coco”.

Há quase cinco décadas ele refresca os domingos dos frequentadores da feira.

— Tudo que conquistei veio daqui. Mas o mais importante foram as amizades. Conheço gerações inteiras de famílias.

Nos dias mais movimentados, ele chega a vender cerca de duas mil unidades de coco.

Mais do que um comerciante, tornou-se uma figura afetiva da cidade.


Tim do Coco: “Tudo o que consegui na minha foi aqui saiu aqui desta feira, onde tenho muitas amizades

Flores para colorir a memória

Entre frutas, carnes, roupas e artesanato, uma barraca chama atenção pelos tons de verde.

Ali trabalha Mariana Mello, conhecida como Floresnana.

Aos 33 anos, representa uma nova geração de feirantes.

— Gosto de trazer novidades. Quero que as pessoas levem um pouco de natureza para suas casas. Faço isso com muito amor.

Sua presença simboliza a renovação constante da feira.


Mariana Mello, trabalha com plantas, arranjos naturais e adubo. “Faço o diferencial nesta feira, porque sempre procuro trazer produtos diferentes, de qualidade

Enquanto alguns personagens carregam décadas de história, outros começam a escrever seus próprios capítulos.

Onde o samba encontra a fé

Poucos lugares no Brasil conseguem reunir tantas expressões culturais em um mesmo espaço.

Na Mirandela, aos sábados, a Beija-Flor de Nilópolis transforma a rua em palco de emoção.

Nos domingos, os fiéis seguem para a Igreja de Nossa Senhora Aparecida.

Em datas religiosas, tapetes de sal tomam conta da via.

Ao longo do ano, desfiles estudantis, procissões e eventos comunitários ocupam o mesmo espaço.

— Tudo gira em torno da Mirandela — resume Leonardo Monteiro.

Para ele, a rua simboliza a essência de Nilópolis.

— É ali que a Beija-Flor sonha seus próximos enredos. É ali que compositores se encontram. É ali que as pessoas vivem sua religiosidade, sua cultura e sua convivência diária.

A rainha e o povo

Símbolo do carnaval nilopolitano, Sonia Maria Regina Mascarenha, a eterna Soninha Capeta, conhece bem a força daquele espaço.

Ex-rainha de bateria da Beija-Flor por 22 anos, ela fala da feira com carinho.

— Para mim, essa feira é maravilhosa. Todo domingo ela fica cheia. É um lugar onde muita gente consegue ganhar seu dinheiro com honestidade.

Sua fala traduz um sentimento compartilhado por milhares de moradores.

Para Soninha Capeta, a feira livre é um lugar onde muita gente consegue ganhar seu dinheiro com honestidade.

O patrimônio invisível

O que torna a Feira da Mirandela especial não pode ser medido apenas em números.

Não está apenas nas mais de 400 barracas.

Nem nos cerca de 10 mil visitantes dominicais.

Nem na extensão de mais de um quilômetro.

Seu verdadeiro patrimônio é invisível.

Está nos apelidos carinhosos.

Nos clientes que compram sempre com o mesmo feirante.

Nas receitas passadas de geração em geração.

Nos encontros marcados para “depois da missa”.

Nos sambistas que circulam com o cavaquinho debaixo do braço.

Nas crianças que hoje acompanham os pais e amanhã levarão seus próprios filhos.

A Mirandela é a prova de que uma cidade não é feita apenas de ruas e prédios.

Uma cidade é feita de memórias.

E poucas ruas guardam tantas memórias quanto a Estrada Mirandela.

Quando as barracas começam a ser desmontadas no final da tarde de domingo, parece que o coração da cidade desacelera.

Mas apenas por alguns dias.

Porque os nilopolitanos sabem que, no próximo domingo, a velha senhora voltará a despertar.

E quando isso acontecer, mais uma vez, Nilópolis inteira estará ali.

Comprando, vendendo, rezando, sambando, encontrando amigos, criando lembranças.

Vivendo.

Porque a Feira da Mirandela não é apenas uma feira.

Ela é a alma de Nilópolis exposta ao sol.

Fotos: Antônio Assunção e Geraldo Perelo