Um futebol sem humor

(*) Por Jorge Gama

Por não ter o menor talento para o futebol não arrisquei outra modalidade de esporte, não me sinto com autoridade para uma análise adequada sobre os jogos. Gostaria, como a grande maioria dos brasileiros, conhecer os detalhes de cada campeonato do Flamengo ou do Vasco, time do qual ainda sou torcedor. Invejo os brasileiros que sabem tudo sobre o dia, a hora e o local do milésimo gol de Pelé.

Felizmente, para não ser condenado ao ostracismo pleno, fui ao Maracanã umas poucas vezes ver o Santos jogar. Hoje agradeço ao Nelson, que encostava sua Kombi novinha no Bar Ok para ver quem queria assistir ao jogo, e o custo já incluía o ingresso. Graças a essa facilidade vi alguns jogos no Maracanã.

Outra oportunidade para conhecer o futebol e seus mistérios foi a leitura do livro do Nilton Santos, com episódios extraordinários de sua atuação e do Botafogo de Didi, Garrincha, Zagalo e Amarildo. A leitura é imperdível.

O episódio da excursão de dois jogos que o time, em seu grande momento, fez à Venezuela é um monumento especial para o humor do futebol. “No momento em que o avião sobrevoava Caracas, o empresário do time, no centro do avião, faz uma comunicação aos jogadores e à comissão técnica com os elogios de praxe aos melhores jogadores do time, que eram a base da Seleção Brasileira na época. O aviso soou como uma tragédia: ‘O jogo, por favor, não pode passar de dois a zero’.” A decepção tomou conta da equipe. Imagine Garrincha, Didi, Zagalo, Amarildo e o próprio Nilton Santos tendo que ouvir essa proibição? Em seguida veio a justificativa: a goleada teria que ser no segundo jogo. O empresário tinha suas razões para adiar a goleada, do contrário não haveria a segunda partida. Essa é a alma do futebol fora de campo.

A Espanha é a nova Campeã com um futebol burocrático, sem humor. Quando a opção é apenas a posse de bola o jogo deveria terminar no primeiro tempo, entregar a taça e começar o show que, mesmo com esses artistas, fica melhor. A posse de bola é o mesmo que uma torta de chocolate “diet”. O mundo do futebol acaba de reconhecer a Espanha como Campeã Mundial com uma seleção administrativa, dona da bola que não joga e nem deixa jogar. Ainda assim, é a vida.

(*) Jorge Gama é Advogado.