Vicente Loureiro lança “Evidências Urbanas” e convoca sociedade a repensar o futuro das cidades brasileiras

Vicente Loureiro lança “Evidências Urbanas” e convoca sociedade a repensar o futuro das cidades brasileiras

Em noite de reflexão e confraternização em Nova Iguaçu, urbanista alerta para os desafios do crescimento urbano, critica a cultura do automóvel e defende uma Baixada Fluminense mais integrada, sustentável e inclusiva

Por Geraldo Perelo

As cidades brasileiras estão doentes ou apenas perderam a capacidade de ouvir seus próprios habitantes? A pergunta, ainda que não formulada literalmente, atravessou toda a noite desta terça-feira (16), durante o lançamento do livro “Evidências Urbanas”, do urbanista Vicente Loureiro, no Patronato São Vicente, em Nova Iguaçu.

O encontro reuniu lideranças políticas, empresários, acadêmicos, profissionais liberais e representantes da sociedade civil da Baixada Fluminense em um ambiente marcado pela celebração, pela troca de ideias e, sobretudo, pela reflexão sobre os rumos das cidades brasileiras.

O encontro reuniu lideranças políticas, empresários, acadêmicos, profissionais liberais e representantes da sociedade civil da Baixada Fluminense

Conselheiro da Agetranspo, ex-secretário estadual da Região Metropolitana e um dos principais especialistas em planejamento urbano do Rio de Janeiro, Vicente Loureiro apresentou ao público uma obra que nasce da observação cotidiana da vida urbana e da necessidade de traduzir para as pessoas comuns temas frequentemente restritos aos círculos técnicos e acadêmicos.

Mais do que um lançamento literário, o evento transformou-se em um fórum de discussão sobre mobilidade, desenvolvimento regional, cidadania, comportamento urbano e o futuro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Ao longo da noite, Loureiro deixou claro que sua principal motivação não foi escrever para especialistas.

— O que me encanta e o que me desafia é escrever para as pessoas — afirmou.

A declaração sintetiza a essência de “Evidências Urbanas”, livro construído a partir de uma longa trajetória de observação e análise das cidades. Segundo o autor, a obra nasceu quase por acaso, impulsionada pelo acúmulo de artigos semanais que publica desde 2013 em jornais e portais de notícias, entre eles o GPBaixadanews.com.

Para o médico Joé Sestello, Vicente faz parte da história que se confunde com a própria história da Baixada Fluminense e de Nova Iguaçu

Nesses textos, ele passou a registrar situações aparentemente simples do cotidiano urbano, mas que revelam problemas estruturais, desafios coletivos e oportunidades de transformação social.

Inspirado por um antigo livro escolar, “Português ao Alcance de Todos”, que marcou sua juventude, Vicente decidiu fazer algo semelhante em sua área de atuação.

— Eu queria fazer urbanismo ao alcance de todos. Afinal, todos fazem a cidade. O modo como as pessoas se comportam nas cidades pode fazer com que elas fiquem melhores ou piores — explicou.

Essa visão atravessa toda a obra. Para o urbanista, a cidade não é construída apenas por arquitetos, engenheiros ou governantes. Ela é moldada diariamente pelos hábitos, escolhas e comportamentos de milhões de cidadãos.

E foi justamente ao abordar essa dimensão humana que Vicente fez uma das reflexões mais contundentes da noite.

Com evidente incômodo, ele citou um dado que considera alarmante: o Brasil permanece entre os países com maiores índices de mortes no trânsito.

Entre os amigos que prestigiaram o encontro, o diretor-geral da Escola Superior de Advocacia, João Bosco Filho (de terno)

Para ele, a solução não depende exclusivamente de mais obras ou projetos urbanísticos.

— Não falta engenharia. Não falta urbanismo. Falta comportamento. Falta atitude. Falta uma maneira de lidar com o automóvel como instrumento a serviço das necessidades das pessoas, e não como demonstração de status, velocidade ou potência.

A crítica ecoa uma das ideias mais conhecidas do ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do estado do Pará e urbanista Jaime Lerner, frequentemente citado por Loureiro.

— O carro é o cigarro do futuro.

A frase, repetida durante o evento, provocou reflexão entre os presentes sobre o modelo de desenvolvimento urbano adotado pelas grandes cidades brasileiras nas últimas décadas.

Para Vicente Loureiro, muitas das dificuldades enfrentadas atualmente — congestionamentos, poluição, acidentes e desigualdades de acesso — são resultado de escolhas equivocadas que privilegiaram veículos em detrimento das pessoas.

Ao defender uma nova cultura urbana, o autor ressaltou que a urbanidade, muitas vezes sufocada pela velocidade da vida contemporânea, precisa voltar ao centro das políticas públicas e das relações sociais.

O ambientalista Hélio Vanderlei leu trecho de uma crônica do Vicente Loureiro. A jornalista Bernadete Travassos com sua mãe Alzira, fundadora da Associação Amigos de Bairros de Meriti

— Em nome dessa necessidade de refletirmos sobre o nosso comportamento na cidade, na busca de uma urbanidade às vezes perdida, às vezes massacrada pela modernidade, é que existe esse esforço de encontrar semanalmente um tema para falar de cidade. Falar para quem realmente faz a cidade acontecer: as pessoas.

Ao longo das páginas de “Evidências Urbanas”, essa preocupação aparece de forma recorrente.

O livro parte de uma constatação simples e poderosa: o Brasil é um país essencialmente urbano.

Hoje, a grande maioria dos brasileiros vive em cidades. É nelas que se concentram as oportunidades de trabalho, educação, cultura e inovação. Mas também é nelas que se revelam as desigualdades, as carências de infraestrutura e os conflitos sociais.

Nesse cenário, a Baixada Fluminense ocupa posição estratégica.

Vicente Loureiro aproveitou o lançamento para defender uma visão mais ambiciosa para a região, frequentemente lembrada apenas por seus problemas históricos.

Segundo ele, a Baixada possui enorme potencial econômico, logístico e humano, mas precisa ser enxergada como protagonista no desenvolvimento metropolitano.

— Somos mais de três milhões de habitantes, com uma densidade populacional muito expressiva. Temos passivos sociais e urbanísticos importantes, mas eles só serão superados se houver mais sinergia entre governos, iniciativa privada, universidades e sociedade civil para construir um processo de desenvolvimento mais inclusivo, coeso e sustentável.

A fala encontrou eco entre diversas lideranças presentes.

O médico e diretor-presidente da Unimed Nova Iguaçu, José Sestello, destacou a contribuição histórica de Vicente Loureiro para a construção da identidade regional.

— Vicente faz parte da história que se confunde com a própria história da Baixada Fluminense e de Nova Iguaçu. É um quadro técnico nacional, inquestionável, que consegue retratar com precisão os valores e as potencialidades da nossa região.

Urbanista Vicente Loureiro em noite de autógrafos: “O que me encanta e o que me desafia é escrever para as pessoas”

Já o arquiteto e ex-secretário de Obras de Nova Iguaçu, Cezar Mariano, preferiu destacar o lado realizador do homenageado.

— Vicente é um poeta, mas também uma fábrica de ideias. O que mais me inspira é sua capacidade de transformar ideias em realizações concretas. Quem conhece a administração pública sabe o quanto isso é difícil.

Para o diretor-geral da Escola Superior de Advocacia, João Bosco Filho, o legado do urbanista ultrapassa a esfera técnica.

— Vicente Loureiro faz história como homem público e também como nome importante da literatura brasileira.

A trajetória do autor ajuda a explicar o reconhecimento.

Com mais de quatro décadas dedicadas à administração pública, Vicente participou de alguns dos projetos mais relevantes para o desenvolvimento urbano fluminense. Entre eles, a Via Light, o Programa Baixada Viva e a coordenação do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (PEDUI), considerado uma das principais referências de planejamento metropolitano do país.

Mas se o técnico foi amplamente celebrado durante a noite, o escritor também teve seu espaço.

Um dos momentos mais emocionantes do evento aconteceu durante a leitura de trechos de crônicas presentes em seu livro anterior, “Tempo de Cidade”.

As narrativas “Ouvir o Galo Cantar e Saber Onde”, “Armazéns, Bares e Armarinhos” e “O Rio da Minha Terra” transportaram o público para a Paracambi da infância e da adolescência do autor.

Na voz de sua esposa, Dinha Pinheiro, do ambientalista Hélio Vanderley e de Cezar Mariano, as lembranças ganharam vida, revelando um Vicente mais íntimo, sensível e afetivo.

Foram relatos que mostraram como a memória também constrói cidades.

Porque, antes dos mapas, das avenidas e dos projetos urbanísticos, existem as pessoas e suas histórias.

Talvez seja justamente essa combinação entre técnica e sensibilidade que faça de “Evidências Urbanas” uma obra singular.

Ao reunir conhecimento acadêmico, experiência administrativa e observação humana, Vicente Loureiro oferece mais do que diagnósticos sobre os problemas urbanos.

Ele propõe um convite.

Um convite para que cada cidadão compreenda que a cidade não é apenas o lugar onde vive.

É uma construção coletiva, permanente e inacabada.

E que seu futuro dependerá menos do concreto e mais da capacidade das pessoas de conviver, dialogar e construir juntas uma nova forma de urbanidade.

Fotos: Tiago Loureiro