Polícia Federal aponta supostas vantagens indevidas a Cláudio Castro em investigação sobre esquema ligado à Refit
Decisão do ministro Alexandre de Moraes, que retirou o sigilo da Operação Sem Refino 2, cita despesas com caviar, imóveis de luxo e indícios de ocultação patrimonial; defesa do ex-governador nega irregularidades

A Polícia Federal identificou indícios de que o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, teria sido beneficiado diretamente por um suposto esquema de lavagem de capitais envolvendo pessoas e empresas ligadas à Refit, antiga Refinaria de Manguinhos. Entre os elementos apontados pelos investigadores estão o pagamento de despesas pessoais por terceiros, a utilização de imóveis de alto padrão e possíveis mecanismos de ocultação patrimonial.
As informações constam na decisão relacionada à segunda fase da Operação Sem Refino, cujo sigilo foi levantado nesta quinta-feira (3) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo a investigação, documentos, movimentações bancárias e mensagens extraídas de aparelhos celulares apreendidos reforçariam suspeitas de uma estrutura montada para financiar despesas pessoais e garantir vantagens a agentes públicos por meio de empresas e intermediários.
A defesa de Cláudio Castro negou qualquer participação em esquema criminoso, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros.
Compra de caviar
Um dos episódios citados na decisão envolve a aquisição de caviar de alto padrão no valor de R$ 10,5 mil. De acordo com a Polícia Federal, mensagens indicam que Castro teria negociado pessoalmente diferentes tipos e gramaturas do produto com um fornecedor.
Parte da encomenda teria sido entregue em uma suíte do Hotel Emiliano, em São Paulo, onde o então ex-governador estava hospedado em abril de 2026.
A análise financeira, entretanto, apontou que o pagamento não saiu das contas pessoais de Castro. Segundo a PF, a transferência foi realizada pela empresa AC Santos Participações e Empreendimentos, pertencente ao advogado Antonio Carlos da Conceição Santos, conhecido como “Pipo”, citado pelos investigadores como um dos operadores do suposto esquema de lavagem de capitais.
Para a Polícia Federal, o episódio seria um dos indícios do uso de terceiros para custear despesas pessoais.
Mansão em Petrópolis
Outro ponto destacado pela investigação é a utilização de um imóvel de luxo localizado no condomínio Locanda Residenze, em Petrópolis.
Formalmente, a propriedade estaria registrada em nome da empresa Concrecasa Construções Inteligentes Ltda. No entanto, segundo a PF, Castro teria exercido a posse de fato do imóvel e atuado como se fosse o proprietário.

Os investigadores afirmam que mensagens encontradas em celulares mostram o ex-governador acompanhando rotinas do imóvel, recebendo contas de energia e coordenando reformas.
Entre os documentos apreendidos estaria um projeto para instalação de uma adega climatizada avaliado em R$ 245 mil. O arquivo teria sido identificado com referências ao nome de Cláudio Castro.
A investigação também destaca vínculos empresariais envolvendo pessoas relacionadas à administradora da empresa proprietária do imóvel e companhias que mantiveram contratos milionários com o Governo do Estado durante a gestão de Castro.
Cobertura na Barra da Tijuca
A Polícia Federal também investigou a situação da cobertura onde Cláudio Castro reside, localizada no Condomínio Atmosfera, na Barra da Tijuca.
De acordo com os investigadores, o imóvel é ocupado mediante contrato de aluguel de R$ 10 mil mensais, valor considerado abaixo da média de mercado para propriedades semelhantes na região, estimada entre R$ 25 mil e R$ 29 mil.
A empresa proprietária da cobertura, segundo a decisão, teria sido criada pouco tempo antes da aquisição do imóvel e possuiria a propriedade como seu principal ativo.
Mensagens extraídas de celulares também indicariam que Castro e sua esposa participaram diretamente de decisões relacionadas a obras e intervenções realizadas na cobertura antes da mudança para o imóvel.
Operação Sem Refino
O procedimento investiga supostos crimes de gestão fraudulenta, lavagem de capitais, sonegação fiscal e evasão de divisas relacionados às atividades da Refit e de seu controlador de fato, Ricardo Andrade Magro.

Segundo a Polícia Federal, há indícios de continuidade de um esquema de lavagem de dinheiro que envolveria empresas, operadores financeiros e possíveis conexões com agentes públicos do Estado do Rio de Janeiro.
Os investigadores apontam que despesas pessoais e vantagens destinadas a agentes públicos poderiam ter sido financiadas indiretamente por empresas e pessoas inseridas no chamado “universo econômico” ligado à Refit.
A primeira fase da Operação Sem Refino foi deflagrada em maio. Na ocasião, o ministro Alexandre de Moraes determinou medidas contra investigados e autorizou buscas envolvendo Cláudio Castro e outras pessoas.
Ricardo Magro é considerado foragido e foi incluído na lista de difusão vermelha da Interpol.
Defesa nega irregularidades
Em nota, a defesa do ex-governador Cláudio Castro negou as acusações e afirmou que não houve participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagens indevidas ou favorecimento a terceiros.
Sobre os imóveis, a defesa informou que a residência na Barra da Tijuca possui contrato regular de locação e pagamentos comprováveis. Em relação ao imóvel de Petrópolis, afirmou que também era alugado e que o contrato já foi encerrado.
Quanto à compra de caviar, os advogados sustentaram que o episódio ocorreu mais de 30 dias após Castro deixar o Governo do Estado e que os produtos teriam sido encomendados por um amigo.
A defesa também negou qualquer ligação entre os episódios envolvendo imóveis e despesas pessoais com a Refit.
Os advogados afirmaram ainda que os contatos com representantes da empresa tiveram caráter institucional e não resultaram em benefícios.
Por fim, a defesa informou ter solicitado ao ministro Alexandre de Moraes que Cláudio Castro seja ouvido pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos e apresentar documentos relacionados à investigação.
“Cláudio Castro reafirma que não praticou qualquer ato ilícito”, conclui a nota.
Fotos Reprodução














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