
De Darcy Ribeiro a Oyá, escolas apostam em literatura, ancestralidade, cultura popular e grandes personagens para conquistar o título do Carnaval carioca

O Carnaval do Rio de Janeiro de 2027 já começa a ganhar forma. Com a definição da ordem oficial dos desfiles do Grupo Especial, as escolas de samba se preparam para levar à Marquês de Sapucaí histórias que passeiam pela literatura brasileira, ancestralidade africana e afro-brasileira, cultura popular, religiosidade, memória e personagens que ajudaram a construir a identidade do país.
Ao todo, 12 agremiações estarão na disputa pelo título, divididas entre o domingo (7), a segunda-feira (8) e a terça-feira (9) de fevereiro. A programação reúne nomes tradicionais do Carnaval carioca e enredos que prometem transformar a avenida em um grande palco de histórias, homenagens e manifestações culturais.
Confira a ordem dos desfiles e os enredos de cada escola:
Domingo – 7 de fevereiro
1ª – União de Maricá
Enredo: “Utopia Brasil: Darcy Ribeiro”
Carnavalesco: Edson Pereira
A União de Maricá fará sua estreia na Sapucaí celebrando Darcy Ribeiro, educador, escritor, antropólogo e político que dedicou sua vida à construção de um projeto de país mais justo, democrático e voltado para a educação.
O desfile deverá apresentar diferentes aspectos do pensamento de Darcy sobre a formação do povo brasileiro, além de destacar sua relação com Maricá, município onde viveu na Praia de Cordeirinho durante os anos 1990.
2ª – Beija-Flor de Nilópolis
Enredo: “Zeneida: O Sopro do Pó de Louro”
Carnavalesco: João Vitor Araújo
A Beija-Flor levará para a avenida a história de Zeneida Lima, pajé, escritora e líder espiritual do Arquipélago do Marajó.
A azul e branca de Nilópolis pretende mergulhar nos saberes ancestrais amazônicos, na pajelança cabocla e na relação entre espiritualidade, natureza e preservação ambiental, apresentando a trajetória de uma mulher ligada à cultura e à defesa da Amazônia.
3ª – Paraíso do Tuiuti
Enredo: “Ciata: a Mãe Preta do Samba”
Carnavalesco: Renato Lage
O Paraíso do Tuiuti prestará homenagem a Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, personagem fundamental para a história do samba carioca.
A escola revisitará a chamada Pequena África e as rodas de samba que ajudaram a consolidar o gênero no Rio de Janeiro, destacando também a resistência cultural das tias baianas e a importância da população negra na formação da identidade musical brasileira.
4ª – Unidos de Vila Isabel
Enredo: “Torto Arado – sobre a terra há de viver sempre o mais forte”
Carnavalescos: Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Inspirada no premiado romance de Itamar Vieira Junior, a Vila Isabel levará à Sapucaí a história das irmãs Bibiana e Belonísia e a realidade das comunidades rurais do sertão baiano.
O enredo abordará temas como a luta pela terra, a resistência quilombola, a desigualdade social e a ancestralidade, além de explorar o universo místico do Jarê, manifestação religiosa de matriz africana presente na Chapada Diamantina.
Segunda-feira – 8 de fevereiro
5ª – Mocidade Independente de Padre Miguel
Enredo: “Latinamente Independente: Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”
Carnavalesco: Jack Vasconcelos
A Mocidade aposta em um enredo de identidade e afirmação latino-americana. A inspiração parte da obra América Invertida, de 1943, do artista uruguaio Joaquín Torres García, que propõe colocar o Sul como referência para uma nova visão do continente.
A escola pretende questionar o eurocentrismo e refletir sobre imperialismo, soberania e identidade, defendendo a valorização da cultura e da história dos povos latino-americanos.
6ª – Unidos da Tijuca
Enredo: “A Cabeça do Santo”
Carnavalesco: Lucas Milato
Baseado no livro A Cabeça do Santo, da escritora Socorro Acioli, o desfile da Unidos da Tijuca levará para a avenida uma história marcada por fé, fantasia e realismo mágico nordestino.
A narrativa acompanha Samuel e sua passagem por uma pequena cidade do Ceará, onde encontra uma gigantesca cabeça de Santo Antônio. A escola promete transformar a obra literária em um desfile repleto de elementos da cultura e da religiosidade popular nordestina.
7ª – Acadêmicos do Salgueiro
Enredo: “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”
Carnavalescos: Jorge Silveira e Leonardo Antan
O Salgueiro voltará a Xica da Silva, personagem que já faz parte da história da própria escola. Foi no terreiro salgueirense, em 1963, que a personagem ganhou projeção nacional por meio de um desfile histórico.
Em 2027, a agremiação pretende revisitar esse imaginário a partir de uma perspectiva contemporânea, buscando superar estereótipos e destacar o protagonismo, a força e a trajetória da mulher negra na sociedade brasileira.
8ª – Imperatriz Leopoldinense
Enredo: “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”
Carnavalesco: Leandro Vieira
A Imperatriz Leopoldinense mergulhará na cultura popular nordestina para contar uma história real cercada de mistério.
O enredo aborda o desaparecimento de Dona Júlia, uma boneca gigante considerada sagrada dentro da tradição do maracatu pernambucano. A personagem permaneceu desaparecida durante mais de 30 anos, até ser localizada em um terreiro de Olinda.
Tweça-feira – 9 de fevereiro
9ª – Portela
Enredo: “Ao Mestre, com Carinho”
Carnavalesco: Paulo Barros
A Portela prestará uma grande homenagem a Monarco, um dos maiores símbolos da história da azul e branca de Madureira e integrante fundamental da Velha Guarda da escola.
O desfile deverá percorrer a trajetória do cantor e compositor, resgatando sua relação com a Portela, sua defesa das tradições do samba e sua importância para a preservação da memória da agremiação.
10ª – Unidos do Viradouro
Enredo: “Griô”
Carnavalesco: Tarcísio Zanon
A Unidos do Viradouro levará para a Sapucaí a figura dos griôs, guardiões responsáveis pela preservação e transmissão da memória e dos conhecimentos por meio da tradição oral.
O enredo estabelecerá uma conexão entre a tradição dos griôs e o samba, destacando o papel de ambos na preservação da história, da identidade e da cultura de diferentes povos através das gerações.
11ª – Acadêmicos do Grande Rio
Enredo: “Sankofa Tabon: Os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”
Carnavalesco: Antônio Gonzaga
A Grande Rio, de Duque de Caxias, contará uma história pouco conhecida relacionada à diáspora africana.
O desfile abordará a trajetória de africanos escravizados que, depois de conquistarem a liberdade, retornaram ao continente africano e ajudaram a formar comunidades na região da antiga Costa do Ouro, território onde atualmente está localizado Gana.
A proposta também resgata o significado de Sankofa, associado à importância de olhar para o passado para construir o futuro.
12ª – Estação Primeira de Mangueira
Enredo: “Oyá por Nós”
Carnavalesco: Sidnei França
Fechando os desfiles do Grupo Especial, a Mangueira levará à avenida uma homenagem a Oyá, conhecida como Iansã nas religiões de matriz africana.
A escola pretende explorar a força feminina e os elementos associados à divindade, como os ventos, as tempestades e a transformação. Ancestralidade, espiritualidade e religiosidade estarão entre os principais elementos da proposta mangueirense.
Carnaval de histórias e ancestralidade
A safra de enredos para o Carnaval 2027 revela uma forte aposta das escolas em histórias que ajudam a compreender a formação cultural do Brasil.
Literatura, memória, samba, religiosidade, cultura popular, ancestralidade africana e afro-brasileira e grandes personagens da história brasileira estarão no centro da disputa. Da utopia de Darcy Ribeiro à força de Oyá, passando por Tia Ciata, Xica da Silva, Monarco, Torto Arado e os griôs, a Sapucaí deverá receber três noites de desfiles marcadas por diferentes formas de contar e preservar a história.
Foto: Divulgação/Riotur
