Beija-Flor escolhe o samba que levará Zeneida e a força da Amazônia para a Sapucaí

Beija-Flor escolhe o samba que levará Zeneida e a força da Amazônia para a Sapucaí

Samba 13, de Marquinhos Beija-Flor, Cláudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Júlio Alves e Léo Freire, vence a disputa e ganha a missão de transformar a história da pajé marajoara em canto, emoção e identidade na Avenida

Por Geraldo Perelo

A noite desta quinta-feira (10) entrou para a história da Beija-Flor de Nilópolis. Em uma quadra tomada por bandeiras, torcidas, passistas, baianas, Velha Guarda, mestres-sala, porta-bandeiras e uma bateria pulsando forte, a comunidade azul e branca escolheu o samba-enredo que terá a responsabilidade de conduzir para a Marquês de Sapucaí, em 2027, uma das mais simbólicas histórias da cultura amazônica.

O grande vencedor foi o Samba 13, de Marquinhos Beija-Flor, Cláudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Júlio Alves e Léo Freire. A composição foi escolhida para embalar o enredo “Zeneida: O Sopro do Pó de Louro”, desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, em parceria com os pesquisadores Bruno Laurato, Guilherme Niegro e Vivian Pereira.

O presidente Almir Reis anunciou o samba campeão já na madrugada desta sexta-feira

Mais do que definir uma obra musical, a Beija-Flor escolheu a voz que pretende levar para a Avenida a trajetória de Zeneida Lima, pajé marajoara, escritora, poeta, compositora e ambientalista, transformando sua história em uma grande celebração da ancestralidade, dos saberes tradicionais e da diversidade cultural brasileira.

Uma escolha que virou espetáculo

A grande final foi muito além de um concurso de samba-enredo. A quadra da Beija-Flor virou um grande palco de memória, fé, música e carnaval.

A escola preparou uma verdadeira noite de gala para a comunidade. O público acompanhou apresentações de seus principais segmentos, reviveu sambas que marcaram gerações e testemunhou momentos de emoção com a participação de baluartes e personagens fundamentais da história nilopolitana.

Anísio com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré
Velha Guarda com Pinah

A festa ganhou ainda um componente especial: a presença simbólica de Zeneida Lima, apresentada em vídeo diretamente do Pará. A homenagem aproximou Nilópolis do Marajó e reforçou a proposta do enredo de criar uma ponte entre a Baixada Fluminense e a Amazônia. O carimbó também marcou presença, ampliando a atmosfera paraense da noite.

A programação contou com os intérpretes Jéssica Martin e Nino do Milênio, que deram voz a clássicos da Beija-Flor, além de passistas, baianas, Velha Guarda e outros segmentos da escola. No palco, o casal Claudinho e Selminha Sorriso representou a tradição da azul e branca, enquanto a bateria comandada pelos mestres Plínio e Rodney sustentou o ritmo da celebração. A rainha de bateria Lorena Raissa também foi um dos destaques da noite.

Uma viagem pela história da campeã

Em determinado momento da festa, a Beija-Flor fez a quadra viajar no tempo. Grandes momentos de sua trajetória foram revisitados por meio de sambas-enredo que ajudaram a construir a identidade da escola. Entre eles, “Sonhar com Rei Dá Leão”, de 1976, que marcou o primeiro campeonato da Beija-Flor no Grupo Especial, além de outros sambas históricos que embalaram títulos e desfiles inesquecíveis, como os de 1995, 2004 e 2016.

A Beija-Flor fez a quadra viajar no tempo. Grandes momentos de sua trajetória
Casal Claudinho e Selminha Sorriso representou a tradição da azul e branca

A mensagem era clara: a Beija-Flor não queria apenas escolher um samba. Queria lembrar à sua comunidade o tamanho de sua história antes de iniciar mais uma caminhada rumo à Sapucaí.

A escola é a maior campeã da era do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, com dez títulos, e soma 15 campeonatos no Carnaval carioca. Em 2026, terminou como vice-campeã e agora se prepara para voltar à Avenida em busca de seu 16º título.

História que já cruzou o caminho da Beija-Flor

A escolha do enredo também carrega uma forte ligação com a história da própria escola. Zeneida Lima dedicou parte de sua trajetória às crianças e à preservação dos conhecimentos tradicionais por meio do trabalho desenvolvido no Instituto Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia.

A festa ganhou ainda um componente especial: a presença simbólica de Zeneida Lima, apresentada em vídeo diretamente do Pará
Neguinho da Beija-Flor ao lado de Selminha Sorriso, desejou sorte aos concorrentes do melhor samba de enredo

Seu livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó” já havia inspirado a Beija-Flor no Carnaval de 1998, quando a escola conquistou o título. Quase três décadas depois, a azul e branca retorna ao universo místico de Zeneida, agora colocando a própria pajé no centro da narrativa. É uma espécie de reencontro entre a escola e uma história que já lhe trouxe glória.

O Carnaval como memória cultural

O enredo de 2027 ganha uma dimensão que ultrapassa a homenagem biográfica. Zeneida funciona como uma porta de entrada para o universo cultural do Marajó e da Amazônia. Por meio de sua trajetória, a Beija-Flor poderá apresentar na Avenida elementos ligados à natureza, aos rios, à espiritualidade, aos conhecimentos tradicionais, à cultura popular e à tradição oral.

Nesse sentido, o samba-enredo escolhido passa a funcionar como uma memória cantada. A Beija-Flor leva para o coração do Carnaval carioca uma cultura que muitas vezes permanece distante dos grandes centros de visibilidade nacional. É a Amazônia falando pela voz do samba. É o Marajó entrando na Sapucaí. E é Nilópolis estabelecendo uma ponte cultural com o Pará.

Quatro sambas chegaram à decisão

A disputa começou com 16 obras inscritas no concurso. Na etapa decisiva, quatro composições chegaram à grande final:

  • Samba 01: Diogo Rosa, Julio Assis, Krraizinho, Manolo, Clay Ridolf e Dr. Luiz Claudio;
  • Samba 02: Júnior Pqd, Ailson Picanço, Junior Billy Mandy, Geraldo M. Felício, Marquinho Paloma e Marcelo Moraes;
  • Samba 13: Marquinhos Beija-Flor, Cláudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Júlio Alves e Léo Freire;
  • Samba Bole-Bole: Herivelto Martins e Silva (Vetinho), selecionado na chamada Etapa Pará.

A presença do samba do Bole-Bole, de Belém, acrescentou um elemento especial à disputa. A composição chegou à final depois da seleção realizada no Pará, reforçando a conexão do concurso com o universo cultural que será apresentado no desfile.

Segundo o carnavalesco João Vitor Araújo, os quatro sambas finalistas receberam o aval de Zeneida. Para ele, a obra vencedora precisava cumprir uma missão difícil: contar a história com começo, meio e fim, conquistar a comunidade e possuir emoção suficiente para sustentar todo o desfile. A preocupação revela o tamanho da responsabilidade entregue agora ao Samba 13.

Uma noite de fé

A religiosidade também ocupou espaço importante na celebração. A homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, símbolo de fé profundamente ligado ao Pará, aproximou ainda mais os universos cultural e espiritual que estarão presentes no Carnaval de 2027.

Presidente Almir chega à quadra conduzindo a imagem de Nossa Senhora de Nazaré
Filho de Anísio e presidente da Liesa, Gabriel David, anunciou um carnaval anida melhor em 2027

A presença da santa na quadra reforçou a atmosfera de fé que marcou a noite e estabeleceu uma conexão simbólica entre Nilópolis e Belém. Foi uma noite em que o samba encontrou a devoção, a tradição encontrou a modernidade e a Baixada Fluminense abriu espaço para a Amazônia.

Baluartes e o legado azul e branco

Um dos momentos de maior emoção foi a reverência aos baluartes da escola. O presidente Almir Reis destacou a importância daqueles que ajudaram a construir a trajetória da Beija-Flor e ressaltou a responsabilidade das novas gerações em preservar esse legado.

A noite também teve a presença de Anísio Abraão David, patrono da escola, acompanhado do filho Gabriel David, presidente da Liesa.

A participação de antigos e novos personagens da Beija-Flor simbolizou a passagem de bastão entre gerações. Entre os momentos especiais esteve ainda a presença de Neguinho da Beija-Flor, que completou 55 anos de trajetória ligada à escola, em uma noite de celebração da memória azul e branca.

De Nilópolis para a Sapucaí

Agora, o Samba 13 deixa a quadra e ganha uma missão muito maior. Será a trilha sonora de um desfile que pretende apresentar ao público uma personagem, um território e uma cultura.

Em 2027, a Beija-Flor será a segunda escola a desfilar no domingo de Carnaval e entrará na Marquês de Sapucaí carregando a responsabilidade de transformar a história de Zeneida Lima em um espetáculo capaz de emocionar a comunidade e convencer os jurados. A comissão de frente terá Jorge Teixeira e Saulo Finelon na criação coreográfica, enquanto João Vitor Araújo comandará a construção artística do enredo.

Antes do anúncio do resultado, Almir Reis resumiu o espírito que tomou conta da quadra ao afirmar que a Beija-Flor, mais uma vez, fará história na Avenida. Gabriel David também destacou a união da escola e projetou um Carnaval de 2027 ainda maior.

E a comunidade respondeu cantando. Porque, na Beija-Flor, samba-enredo não é apenas música. É identidade. É memória. É território. É comunidade. E, em 2027, será também a voz de Zeneida, do Marajó e da Amazônia atravessando a Sapucaí.

O Samba 13 está escolhido. Agora começa a contagem regressiva para a Beija-Flor transformar “O Sopro do Pó de Louro” em espetáculo.