Quando o poder vai embora

(*) Por Jorge Gama

Poucas vezes em nossa história presenciamos uma disputa eleitoral tão acirrada. O diferencial é que, desta vez, vivemos simultaneamente uma disputa eleitoral e uma batalha ideológica.

Durante muitos anos no poder, a esquerda consolidou sua influência em setores estratégicos, como a máquina do Estado, as agências reguladoras, as universidades, os bancos públicos e as ONGs.

Em nome da distribuição de renda e da proteção dos mais pobres, ampliou-se a intervenção estatal na economia. A burocracia excessiva passou a dificultar as atividades econômicas, sobretudo das pequenas e médias empresas.

A esse quadro somaram-se a influência política sobre setores da imprensa, a distribuição de verbas culturais e a ampliação do número de ministérios como instrumento de negociação e apoio congressual. Esse conjunto de práticas fortaleceu a hegemonia da esquerda e restringiu o espaço para o debate ideológico e as propostas da direita.

Entretanto, toda hegemonia produz suas próprias contradições. As denúncias de corrupção e o desgaste político enfraqueceram esse modelo. As redes sociais ampliaram a circulação de informações e romperam parte do controle exercido pelos meios tradicionais de comunicação.

Foi nesse ambiente que a direita conservadora despertou. Influenciada, em parte, pelas ideias do professor Olavo de Carvalho, estruturou um discurso próprio e formou novas lideranças. Passou, assim, a contestar o pensamento único que predominava em importantes espaços políticos e intelectuais.

O que parecia impensável aconteceu em 2018. Sob a liderança de Jair Bolsonaro, a direita superou barreiras políticas e culturais, enfrentou a resistência de setores da mídia e das universidades e derrotou a esquerda na disputa presidencial.

Decisões judiciais abriram caminho para o retorno de Lula ao poder. Seu novo governo, porém, voltou a enfrentar críticas por suas escolhas ideológicas, pela condução política e econômica e pelos questionamentos relacionados às práticas do sistema de poder.

Chegamos a 2026 com uma direita muito mais organizada e presente nas redes sociais. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas por sua principal liderança, o movimento conservador demonstrou capacidade de mobilização.

Nesse contexto, a vitória de primeiro turno atribuída ao senador Flávio Bolsonaro, conforme o cenário eleitoral aqui analisado, expressa a força da disputa ideológica. Revela também a insatisfação de parcela do eleitorado com a continuidade do modelo político vigente.

Apesar disso, setores da mídia insistem em classificar esse campo político como “direita radical”, reduzindo a diversidade de suas posições a um rótulo que pouco contribui para o debate democrático.

Quando o poder vai embora, não saem apenas os ocupantes dos cargos. Perdem força também as redes de influência, os interesses e as ideias que sustentavam determinada hegemonia.

Da derrota da esquerda poderá emergir um novo Brasil, livre e verdadeiramente democrático. O grande desafio será desmontar o aparelhamento ideológico e burocrático do Estado, promover a renovação institucional, eliminar desperdícios e fortalecer a transparência no combate à corrupção. Será necessário, ainda, devolver a condução da política externa ao Ministério das Relações Exteriores, superando os reiterados vexames internacionais, além de iniciar e conduzir as reformas mais urgentes em favor do povo brasileiro.

(*) Jorge Gama é advogado e ex-Deputado Federal.