Museu da Justiça resgata história do antigo Touring em visita guiada na Praça Mauá

Museu da Justiça resgata história do antigo Touring em visita guiada na Praça Mauá

Oitavo encontro do Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal reuniu magistrados, especialistas e visitantes para conhecer a arquitetura e a importância histórica do prédio que foi antigo terminal marítimo

A história do Rio de Janeiro ganhou um novo olhar nesta segunda-feira (14), quando o Museu da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) promoveu o oitavo encontro do Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal. O evento levou magistrados, servidores, especialistas e visitantes ao Edifício Touring, na Praça Mauá, Zona Portuária, para uma palestra e uma visita guiada sobre a trajetória do antigo terminal marítimo.

Com três pavimentos marcados por linhas geométricas, detalhes arquitetônicos e vitrais originais que valorizam a entrada e a escadaria, o prédio reabriu ao público em janeiro e voltou a ocupar espaço importante no roteiro cultural da região portuária.

A programação foi realizada pelo Museu da Justiça em parceria com o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) e o Palácio Tiradentes, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

O projeto celebra quatro prédios históricos que completam 100 anos em 2026: o antigo Palácio da Justiça, atual sede do Museu da Justiça; o Palácio Tiradentes; o antigo Banco Transatlântico Alemão, atual sede do TRE-RJ; e o Edifício Touring.

Patrimônio ajuda a contar a história do Rio

Para a diretora do Museu da Justiça, Siléa Macieira, o circuito representa uma forma de levar a instituição para além de sua sede e aproximar a população de espaços que ajudam a compreender as transformações da sociedade.

Segundo ela, conhecer esses prédios permite que moradores e visitantes passem a enxergar de outra maneira locais que fazem parte da rotina da cidade.

Siléa Macieira: aproximar a população de espaços que ajudam a compreender as transformações da sociedade

A diretora destacou ainda que os quatro edifícios formam uma espécie de corredor histórico e cultural, capaz de revelar mudanças urbanas, econômicas e sociais pelas quais o Rio de Janeiro passou ao longo do tempo.

Arquitetura, reformas e memória

A palestra sobre o Edifício Touring foi conduzida pelos arquitetos Rafael Koury e Felipe Reigada, que apresentaram aspectos da construção, suas reformas e a relação do imóvel com as transformações ocorridas no Rio e no Brasil.

Rafael Koury, gerente de Educação Patrimonial do IRPH, explicou que realizou uma pesquisa específica sobre o Touring para preparar a apresentação. Embora já estudasse a arquitetura art déco carioca e a história da Praça Mauá, o trabalho permitiu aprofundar o conhecimento sobre o edifício.

Rafael Koury: reformas e a relação do imóvel com as transformações ocorridas no Rio e no Brasil

Na sequência, os participantes fizeram uma visita guiada acompanhados por Felipe Reigada, gerente de Obras do IRPH e profissional que acompanhou tecnicamente as reformas do prédio.

Para Reigada, preservar o patrimônio é também preservar referências importantes para compreender a evolução da sociedade. Ele ressaltou que arquitetura e arte são expressões da vida humana e ajudam a entender as mudanças tecnológicas e culturais.

O arquiteto também chamou atenção para a necessidade de aproximar as novas gerações dos bens históricos, principalmente diante do avanço acelerado da tecnologia e da inteligência artificial.

Uma história que também passa pelas famílias

Entre os participantes estava o desembargador Antônio Iloizio Barros Bastos, da 16ª Câmara de Direito Privado do TJRJ. Para ele, conhecer espaços como o Touring ajuda a compreender a história, a arquitetura e a importância que a Praça Mauá teve para o intercâmbio entre o Rio e outros países.

O local tem ainda um significado especial para o magistrado. Seu pai, sua avó e seus tios chegaram ao Brasil vindos de Portugal e desembarcaram no antigo terminal na década de 1950.

desembargador Antônio Iloizio Barros Bastos lembra que Seu pai, o avó e tios chegaram ao Brasil vindos de Portugal e desembarcaram no antigo terminal na década de 1950.

Ele destacou a importância de iniciativas que recuperam memórias muitas vezes desconhecidas pelos próprios cariocas e afirmou que o contato com cultura e história também contribui para a formação dos profissionais do Direito.

A diretora do Departamento de Aperfeiçoamento de Magistrados da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj), Patsy Schlesinger, também participou da atividade. Segundo ela, o circuito aproxima áreas como Direito, arte e patrimônio e poderá contribuir para um curso sobre Direito e Arte previsto para 2027, sob coordenação da desembargadora Andréa Pachá.

Jovens também descobrem o patrimônio

O estudante Gustavo Henrique Schmitz Rigada participou da visita e contou que, apesar de já conhecer a Praça Mauá, nunca havia entrado no Edifício Touring.

Interessado por arquitetura e manifestações artísticas, ele afirmou que conhecer a história do prédio mudou sua percepção sobre o espaço.

Para o estudante, iniciativas como o Circuito Centenário são importantes para aproximar os jovens da memória cultural da cidade, especialmente em um momento de forte transformação tecnológica.

Circuito continua até novembro

O Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal terá mais duas atividades no Museu da Justiça.

Em outubro, a programação abordará Clarice Lispector e sua relação com o antigo Palácio da Justiça, local onde a escritora recebeu a cidadania brasileira em 1940.

Já em novembro, o circuito será encerrado com uma palestra de historiadores do Museu da Justiça sobre crimes de repercussão e a contribuição do Judiciário fluminense para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da legislação brasileira.

A iniciativa reforça a importância de preservar prédios, histórias e personagens que ajudaram a construir a identidade do Rio de Janeiro — e que, muitas vezes, estão presentes na paisagem da cidade sem serem devidamente conhecidos por quem passa por eles diariamente.

Fotos: Nanda Moraes/ TJRJ