Rio decreta luto oficial pela morte de Zuenir Ventura, mestre do jornalismo brasileiro

Rio decreta luto oficial pela morte de Zuenir Ventura, mestre do jornalismo brasileiro

Aos 95 anos, escritor e jornalista deixa uma trajetória de mais de seis décadas marcada por grandes reportagens, livros que ajudaram a interpretar o Brasil e uma profunda ligação com o Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro perdeu nesta terça-feira (22) um de seus mais importantes intérpretes. Morreu, aos 95 anos, o jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Zuenir Ventura, nome que durante mais de seis décadas ajudou a contar e compreender as transformações políticas, sociais e culturais do país. Em homenagem ao jornalista, o prefeito Eduardo Cavaliere decretou luto oficial de três dias no município. O decreto foi publicado em edição extra do Diário Oficial.

O Governo do Estado do Rio de Janeiro também lamentou a morte do jornalista e destacou sua ligação com o estado, sua passagem por importantes veículos de comunicação e sua contribuição para o jornalismo, a literatura e a memória brasileira.

Zuenir morreu em casa, no Rio, em decorrência de uma pneumonia, segundo comunicado da Academia Brasileira de Letras. De acordo com a família, ele morreu dormindo, sem dor e sem sofrimento. O velório será realizado na sede da ABL, e o jornalista será sepultado no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista.

O Rio de Janeiro perdeu nesta terça-feira (22) Zuenir Ventura, jornalista, escritor e membro AB

Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1931, Zuenir chegou ainda jovem ao estado do Rio de Janeiro e construiu uma relação profunda com a cidade. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo e, posteriormente, fez do Rio o cenário de boa parte de sua vida profissional e literária.

Sua trajetória até chegar ao jornalismo foi pouco convencional. Trabalhou como pintor de paredes, office-boy, arquivista e professor universitário antes de se consolidar como um dos grandes nomes da imprensa brasileira. Iniciou a carreira jornalística em 1956, como arquivista da Tribuna da Imprensa, e posteriormente passou por veículos como Correio da Manhã, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil.

Ao longo da carreira, Zuenir acompanhou alguns dos principais acontecimentos políticos e sociais do Brasil. Sua produção jornalística combinava investigação, observação do cotidiano e uma escrita marcada pela capacidade de transformar acontecimentos complexos em histórias compreensíveis para o leitor.

‘1968’ e a memória de uma geração

Um dos maiores marcos de sua trajetória foi o livro 1968 – O ano que não terminou, lançado em 1988. A obra tornou-se referência sobre a juventude, a cultura e os conflitos políticos daquele período e posteriormente inspirou a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo. Segundo a ABL, o livro alcançou dezenas de edições e mais de 400 mil exemplares vendidos.

Outro capítulo importante de sua carreira foi a cobertura do assassinato do seringueiro e líder ambientalista Chico Mendes. Em 1989, Zuenir publicou no Jornal do Brasil a série de reportagens O Acre de Chico Mendes, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog.

O Rio visto por dentro

Foi, porém, em Cidade Partida, lançado em 1994, que Zuenir mergulhou de maneira particularmente profunda na realidade carioca. O livro nasceu de sua experiência acompanhando a violência e os contrastes sociais do Rio, especialmente a partir de Vigário Geral, após a chacina que matou 21 pessoas em 1993.

A obra tornou-se uma referência para a compreensão das desigualdades e da violência urbana na cidade e conquistou o Prêmio Jabuti de Reportagem. A expressão “cidade partida” passou a fazer parte do vocabulário utilizado para discutir os contrastes sociais do Rio de Janeiro.

Além do jornalismo impresso e da literatura, Zuenir também atuou no audiovisual. Participou da codireção de Um Dia Qualquer e assinou o roteiro do documentário Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje, ampliando sua contribuição para a cultura brasileira.

Imortal da Academia Brasileira de Letras

Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, sucedendo o escritor Ariano Suassuna na Cadeira nº 32. Tomou posse em março de 2015, recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.

Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2014

Reconhecido também por sua atuação em defesa dos direitos humanos, recebeu o Prêmio Esso e o Vladimir Herzog e, em 2008, um troféu especial da Organização das Nações Unidas pela contribuição à defesa dos direitos humanos no Brasil.

Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os filhos Mauro Ventura, jornalista, e Elisa Ventura, editora. Depois de mais de seis décadas de profissão, sua obra permanece associada a uma geração de jornalistas que ajudou a registrar as mudanças do Brasil — e, especialmente, a contar as muitas faces do Rio de Janeiro.