Lula vence eleição acirrada e garante quarto mandato; oposição no Congresso será um dos desafios
Lula reverte desvantagem no primeiro turno, vence eleição acirrada e assume novo mandato diante de uma oposição forte no Congresso e do desafio fiscal.

Depois de sair atrás no primeiro turno e mobilizar apoiadores nas ruas e nas redes sociais, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) neste domingo (25) e foi reeleito presidente da República. Com o resultado, terá mais quatro anos no Palácio do Planalto e se torna o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente pelo voto popular.
A vitória foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral às 21h08, quando 97% das urnas estavam apuradas. Naquele momento, Lula tinha 51,74% dos votos, contra 48,26% de Flávio. No primeiro turno, o petista havia ficado atrás do adversário: 45% a 47% dos votos válidos.
Às vésperas de completar 81 anos, na terça-feira (27), Lula retorna ao Planalto após uma disputa apertada. O resultado também consolida sua posição como uma das figuras centrais da política brasileira neste século. A mobilização da campanha na etapa final foi decisiva para reverter a desvantagem inicial.
O novo mandato, porém, começa com obstáculos importantes. Lula terá de negociar com um Congresso Nacional em que enfrenta forte oposição e buscar equilíbrio para as contas públicas, depois de ampliar gastos durante a campanha e prometer fortalecer programas sociais.
Da infância ao movimento sindical
Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no interior de Pernambuco. Foi o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como dona Lindu. Quando ele ainda era bebê, o pai se mudou para o litoral paulista em busca de trabalho.
Em dezembro de 1952, aos sete anos, Lula viajou com a mãe e os irmãos para São Paulo em um caminhão pau de arara. A família se estabeleceu primeiro no Guarujá, onde encontrou Aristides, que já havia formado outro núcleo familiar. Dona Lindu se separou do marido, e, em 1956, mudou-se com os filhos para a capital paulista. Eles passaram a viver em um pequeno cômodo nos fundos de um bar.
Lula trabalhou como vendedor ambulante, engraxate e office boy. Mais tarde, conseguiu emprego na Fábrica de Parafusos Marte e ingressou na indústria aos 14 anos. Aos 18, concluiu o curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Um ano antes, havia perdido o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho.
Na vida pessoal, casou-se em 1969 com a operária Maria de Lourdes da Silva, que morreu grávida em 1971. Em 1974, se casou com Marisa Letícia, com quem viveu por mais de quatro décadas. O casal teve três filhos: Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. Lula também adotou Marcos Cláudio, filho de Marisa de um relacionamento anterior, e é pai de Lurian, filha de Miriam Cordeiro.
Marisa acompanhou a trajetória política do marido, do sindicalismo à Presidência. Ela morreu em fevereiro de 2017, aos 66 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral. Em maio de 2022, Lula se casou com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, durante a campanha que o levaria de volta ao Planalto.
As disputas eleitorais
Lula trabalhou na metalúrgica Villares, em São Bernardo do Campo, e chegou ao movimento sindical por influência do irmão José, conhecido como Frei Chico. Foi suplente, primeiro-secretário e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
Ganhou projeção nacional ao liderar greves de metalúrgicos no ABC durante a ditadura militar. Em 1980, o regime o manteve preso por 31 dias, com base na antiga Lei de Segurança Nacional. No mesmo ano, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, ao lado de sindicalistas, políticos, intelectuais, lideranças rurais e religiosas. Dona Marisa costurou a primeira bandeira do partido.
Sua atuação também contribuiu para a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. No ano seguinte, participou da campanha das Diretas Já, que reuniu multidões em defesa da volta das eleições diretas para presidente.
A passagem para a política eleitoral começou em 1982, quando concorreu ao governo de São Paulo e terminou em quarto lugar. Em 1986, foi eleito deputado federal e participou da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela Constituição de 1988.
Lula disputou a Presidência pela primeira vez em 1989. Chegou ao segundo turno, mas perdeu para Fernando Collor de Mello, então filiado ao PRN. Voltou à disputa em 1994 e 1998, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, impulsionado pelo sucesso do Plano Real no combate à inflação.
Quatro vitórias para a Presidência
Em 2002, Lula venceu José Serra (PSDB) no segundo turno, com 52,7 milhões de votos. Em 1º de janeiro de 2003, tornou-se o primeiro operário a governar o Brasil. A redução da miséria e da desigualdade foi apresentada como prioridade, e o governo fortaleceu políticas sociais e lançou iniciativas como Fome Zero, Bolsa Família e ProUni.
Reeleito em 2006, com 58,2 milhões de votos, derrotou Geraldo Alckmin, então no PSDB. No segundo mandato, lançou programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), voltado a obras de infraestrutura.
Lula também ganhou destaque internacional. O então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a chamá-lo de “o cara”. Ao fim do segundo mandato, em 2010, o petista deixou o governo com aprovação de 87% e teve papel importante na eleição de sua ex-ministra Dilma Rousseff.
Depois de três derrotas presidenciais, condenações posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal e 580 dias preso, Lula voltou a disputar a eleição em 2022. Naquele ano, derrotou Jair Bolsonaro, pai de Flávio, no segundo turno, com 60,3 milhões de votos. A vitória deste domingo marca seu quarto triunfo presidencial e ocorre mais de duas décadas depois da primeira eleição.
Balanço do terceiro mandato
Ao assumir em 2023, Lula recriou ministérios extintos no governo anterior, como o da Cultura, e ampliou a estrutura administrativa. O governo passou a contar com 38 pastas, entre elas os ministérios da Igualdade Racial e dos Povos Indígenas.
O período também foi marcado por crises. Entre elas, o caso de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, ocorridos entre 2019 e 2024. O escândalo levou à troca do comando do instituto, ao indiciamento de ex-dirigentes e à substituição de Carlos Lupi no Ministério da Previdência Social.
O ministro André Mendonça, do STF, também autorizou a Polícia Federal a investigar suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente, no Ministério da Saúde e na Dataprev. Em junho, Lula retirou Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado depois que o parlamentar foi alvo da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes bilionárias relacionadas ao Banco Master.
Na área social e econômica, o governo aprovou a reforma tributária e ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, e foram ampliadas iniciativas de moradia e transferência de renda. Também houve medidas para ampliar o acesso à saúde e estimular investimentos.
No cenário internacional, Lula precisou lidar com conflitos no Oriente Médio e com a política tarifária dos Estados Unidos. A reação brasileira ao aumento de tarifas norte-americanas e os embates públicos com Donald Trump estiveram entre os principais desafios diplomáticos do mandato.
A política econômica também foi alvo de críticas. Adversários questionaram o aumento dos gastos públicos e os ataques do presidente ao Banco Central por causa da taxa básica de juros.
Medidas na reta final da campanha
Nos últimos meses do mandato, Lula recuou de decisões e anunciou medidas com forte apelo popular. Articulou com o Congresso o fim da chamada “taxa das blusinhas”, que cobrava 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A lei foi sancionada no início de setembro.
Antes do primeiro turno, anunciou ainda a proibição de apostas de quota fixa — as chamadas bets —, além de jogos online e cassinos virtuais, como o “Jogo do Tigrinho”.
Na reta final do terceiro mandato, também articulou a aprovação de uma mudança na legislação trabalhista que encerrou a escala 6×1 e estabeleceu cinco dias de trabalho para dois de descanso. Na mesma sessão do Congresso, foi promulgada uma emenda que prevê aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.
A cerimônia reuniu Lula, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Embora Lula e Alcolumbre tenham vivido momentos de tensão durante o mandato, os dois voltaram a se aproximar no período eleitoral.
Às vésperas do segundo turno, o presidente anunciou o Prospera MEI, voltado a microempreendedores individuais, e um reajuste do Bolsa Família. Adversários criticaram as iniciativas e as classificaram como eleitoreiras.
A campanha de Lula também investiu na mobilização digital. Entre as ações esteve o canal “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que reuniu mais de 10 milhões de inscritos. A estratégia nas redes, somada à atuação nas ruas, ajudou a impulsionar a virada que culminou na reeleição.
Com informações do G1














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