Da Baixada para a tela grande: jovens transformam sonhos em cinema em Nova Iguaçu

Da Baixada para a tela grande: jovens transformam sonhos em cinema em Nova Iguaçu

Primeira turma do projeto Nossa História Vai Virar Cinema conclui formação com curta-metragem e mostra que talento, oportunidade e dedicação podem abrir portas no audiovisual

O sonho de trabalhar com cinema ganhou forma, roteiro, personagens e, finalmente, chegou à tela grande. Jovens talentos da Baixada Fluminense viveram uma experiência que pode representar o início de uma nova trajetória profissional: produzir e lançar um filme durante a própria formação.

A primeira turma do curso Nossa História Vai Virar Cinema encerrou suas atividades com a exibição do curta-metragem “Sentar à Mesa”, durante a cerimônia de formatura realizada no dia 22 de julho, no Centro Cultural Mário Marques, em Nova Iguaçu. Além de receberem o Certificado Fábio Mateus de Cultura e Arte, os alunos tiveram a oportunidade de assistir ao resultado de meses de aprendizado e trabalho coletivo.

A experiência mostra, na prática, que fazer cinema não precisa ser um sonho distante para os jovens da região. Com orientação, incentivo e acesso às ferramentas necessárias, ideias que nascem nas comunidades da Baixada podem ganhar as telas e alcançar novos públicos.

Dirigido e roteirizado por Lucca Ouriquis, de 19 anos, morador de Japeri, “Sentar à Mesa” conta a história de Flávio, um homem trans que enfrenta uma relação difícil com uma família extremamente religiosa. O personagem precisa decidir entre manter distância para evitar novas dores ou retornar à casa onde foi rejeitado, buscando preservar a relação com a irmã, uma das poucas pessoas que sempre esteve ao seu lado.

A história culmina em um jantar, momento em que os personagens finalmente se sentam à mesa. Flávio é interpretado por Tawan Pietro.

Para Lucca, a produção representa mais do que uma experiência de aprendizado. É também a oportunidade de colocar uma história no mundo e mostrar que jovens da Baixada podem ocupar espaços de criação e protagonismo no audiovisual.

O próximo desafio já está definido. Segundo o cineasta Marçal Vianna, professor e idealizador do curso, a equipe pretende inscrever o curta em festivais de cinema de diferentes regiões do país. Em breve, a produção também será exibida na Mostra Made in BXD, que neste ano será realizada em Nova Iguaçu e leva filmes produzidos na região para escolas públicas da Baixada Fluminense.

Na edição anterior, realizada em Duque de Caxias, a mostra reuniu cerca de mil espectadores.

Um set de verdade

O diferencial da formação foi justamente aproximar os alunos da realidade de uma produção cinematográfica. Em vez de apenas aprender conceitos em sala de aula, os participantes tiveram contato com um set de filmagem e participaram de diferentes etapas da construção de um filme.

O elenco de “Sentar à Mesa” reúne Cesário Candhi, Edlane Silva, Analu Pacheco e Amanda Fersi, além de Tawan Pietro. Enquanto parte dos atores já possuía experiência no teatro e no audiovisual, Analu fez sua estreia no cinema com a produção.

Ao final da exibição, os artistas subiram ao palco e compartilharam com o público a emoção de ver o resultado de um trabalho construído coletivamente.

Entre os estudantes, a sensação foi de descoberta e superação. O fotógrafo, designer e videomaker Eduardo Silva, morador de Nova Iguaçu, conheceu o projeto por meio de uma reportagem do RJTV. Mesmo já tendo estudado na área, ele esperava encontrar uma experiência mais próxima da sala de aula.

Participar de uma produção em um set real fez com que a formação ganhasse outro significado e mostrou aos alunos como funciona, na prática, o trabalho de uma equipe cinematográfica.

O ator, modelo, fotógrafo e cenógrafo Brunno Zucky, que também estuda Artes Cênicas, conheceu o curso pelas redes sociais. Para ele, a experiência teve impacto não apenas profissional, mas também pessoal.

A intenção agora é continuar no audiovisual e transformar o aprendizado adquirido em novos trabalhos.

Morador de Nilópolis, Helon Wajsman também teve sua primeira experiência no cinema durante o projeto. Videomaker há três anos, ele chegou ao curso com expectativas moderadas por causa do curto período de formação, mas acabou surpreendido pela qualidade das aulas e pela preparação oferecida pelos professores.

O resultado, segundo ele, foi uma equipe preparada para enfrentar o desafio de produzir o filme.

Da formação para novos projetos

O curso já começa a deixar outros frutos. Um dos próximos projetos a ganhar as telas será “Ponto em Comum”, obra criada pelo belforroxense Daniel Mufasa e aprovada no edital Curta Criativo Firjan SESI 2026, na categoria universitária.

O filme terá produção executiva de Marçal Vianna e direção do próprio Mufasa, contando ainda com a participação de alunos e professores do Nossa História Vai Virar Cinema na equipe técnica.

A trajetória de Mufasa também mostra como diferentes experiências podem se encontrar dentro de um mesmo projeto. Além de escrever e atuar, ele já fundou a Livre Arbítrio Filmes e trabalha nos sets de filmagem. Em “Sentar à Mesa”, foi responsável pela captação do som direto.

Para ele, produzir o curta foi um desafio, principalmente diante do pouco tempo disponível para organizar a produção. Ainda assim, o resultado reforçou a importância de criar oportunidades para que novos profissionais possam experimentar o cinema na prática.

Um incentivo para quem está começando

A história da primeira turma do Nossa História Vai Virar Cinema deixa uma mensagem importante para outros jovens da Baixada: talento pode estar em qualquer lugar, mas oportunidade é fundamental para que ele apareça.

A atriz, escritora e professora de teatro e escrita criativa Karla Muniz, por exemplo, entrou no curso com o objetivo de aprender mais sobre a função de assistente de direção. Durante a formação, conseguiu assumir a função e recebeu orientação para desenvolver novas habilidades.

Agora, pretende continuar no audiovisual e dirigir seus próprios roteiros ao lado de colegas que conheceu durante o projeto.

São histórias diferentes, vindas de cidades diferentes, mas que se encontraram diante de um mesmo objetivo: contar histórias.

E é justamente aí que o projeto ganha uma dimensão ainda maior. Ao oferecer aos jovens da Baixada Fluminense contato com profissionais, equipamentos, técnicas e um set de filmagem de verdade, a iniciativa ajuda a transformar curiosidade em conhecimento, conhecimento em experiência e experiência em possibilidade de carreira.

O primeiro filme terminou com os créditos na tela. Para esses jovens, porém, a história está apenas começando.