
(*) Por Joé Sestello
Falar sobre educação é falar sobre o futuro, mas também é falar sobre saúde. As condições em que uma pessoa nasce, cresce, estuda, trabalha e envelhece influenciam diretamente sua qualidade de vida. Por isso, investir na escola é também investir na construção de uma população mais saudável e preparada para o futuro.
A experiência recente da cidade do Rio de Janeiro oferece um exemplo importante para essa reflexão. A rede municipal ampliou a educação em tempo integral e criou os Ginásios Educacionais Tecnológicos, os GETs. O modelo combina tecnologia, robótica, programação, metodologia STEAM e aprendizagem baseada em projetos.
Segundo a Secretaria Municipal de Educação, já são 313 GETs, cerca de 31% das escolas municipais, com previsão de chegar a 500 unidades até o fim de 2028. Os resultados educacionais também merecem atenção. No Ideb de 2023, divulgado em 2024, a rede municipal do Rio alcançou 6,0 nos anos iniciais e 5,2 nos anos finais do Ensino Fundamental, os maiores resultados de sua série histórica. O município também registrou o maior crescimento percentual entre as capitais nos anos iniciais naquele ciclo, segundo a Secretaria Municipal de Educação.
A questão que se coloca para a Baixada Fluminense não é simplesmente copiar um modelo. É identificar o que pode ser adaptado à realidade de cada município. A região reúne redes de ensino com desafios, dimensões e características próprias, mas também apresenta avanços que merecem ser reconhecidos.
No Ideb 2025, São João de Meriti alcançou 5,3 nos anos iniciais e 4,3 nos anos finais. Nova Iguaçu chegou a 5,0 e 4,1, respectivamente.
Duque de Caxias registrou 4,9 nos anos iniciais e 4,0 nos finais, enquanto Belford Roxo alcançou 4,8 e 4,0. Esses números mostram que existe espaço para avançar, mas também indicam que a discussão precisa ir além de notas e rankings.
Uma escola de qualidade pode ampliar o acesso ao conhecimento, desenvolver autonomia e preparar crianças e jovens para tomar decisões mais conscientes.
Isso inclui decisões relacionadas à própria saúde.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a educação e a alfabetização em saúde como elementos importantes para que as pessoas consigam acessar, compreender e utilizar informações de saúde de maneira adequada.
No Brasil, essa relação já está presente no Programa Saúde na Escola, política que integra as áreas de Saúde e Educação para promover o desenvolvimento integral dos estudantes. É na escola que podemos falar de alimentação saudável, atividade física, vacinação, saúde bucal, prevenção de doenças e saúde mental. Também podemos ensinar crianças e adolescentes a reconhecer informações confiáveis e a utilizar a tecnologia de maneira responsável.
Uma educação conectada à saúde ajuda a formar cidadãos mais preparados para cuidar de si, de suas famílias e de suas comunidades. Esse debate é especialmente importante na Baixada Fluminense, onde muitos jovens ainda precisam se deslocar para outras regiões em busca de estudo e trabalho. A escola precisa ser também uma porta de entrada para a qualificação profissional e para novas oportunidades dentro do próprio território.
Tecnologia, programação, robótica e formação técnica podem aproximar os estudantes das profissões que já fazem parte da economia regional e das que surgirão nos próximos anos. Isso exige integração entre escolas, universidades, empresas, serviços de saúde e poder público. Também exige olhar para as necessidades concretas de cada município.
Na saúde, sabemos que prevenção começa muito antes de uma consulta ou de um atendimento hospitalar. Ela começa com informação, hábitos, ambiente, renda, alimentação, atividade física e capacidade de tomar decisões. Educação e saúde, portanto, não podem ser tratadas como áreas isoladas. São partes de uma mesma estratégia de desenvolvimento humano.
Como setor de saúde, temos responsabilidade nessa construção e podemos contribuir com conhecimento, prevenção e promoção da saúde.
Como sociedade, precisamos reconhecer que uma escola mais preparada hoje significa uma população mais preparada amanhã.
A experiência do Rio de Janeiro mostra que inovação pedagógica, tecnologia, avaliação e gestão podem caminhar juntas.
Para a Baixada, o desafio é transformar boas experiências em soluções adaptadas às características e necessidades de seus municípios. Não se trata apenas de melhorar indicadores educacionais. Trata-se de ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e formar uma geração com mais conhecimento, autonomia e perspectiva de futuro.
E, quando educação e saúde caminham juntas, o resultado que buscamos não é apenas uma sociedade mais escolarizada.
É uma sociedade mais saudável, mais produtiva e mais capaz de construir seu próprio futuro.
(*) Joé Sestello é angiologista, cirurgião vascular e endovascular, e diretor-presidente da Unimed Nova Iguaçu
