
(*) Jorge Gama
A nossa história terá que reservar um grande espaço para a análise do fenômeno político e eleitoral do Bolsonarismo.
Assim como Olavo de Carvalho, a trajetória de Jair Bolsonaro na formação da direita no Brasil teve origem em uma carreira individual. Olavo foi residir nos Estados Unidos e passou a lecionar a distância, contribuindo para a formação de milhares de alunos que passaram a sustentar o pensamento conservador.
Bolsonaro, pela via eleitoral, chegou à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Em seguida, elegeu-se Deputado Federal, onde, isoladamente, iniciou sua jornada, marcada por um tipo de atuação independente, distante das estruturas tradicionais dos partidos e das articulações políticas convencionais.
Durante anos, sua presença parlamentar foi identificada por posições conservadoras, manifestações de caráter militar e críticas ao sistema político estabelecido. Sua atuação, inicialmente restrita a um eleitorado específico, foi gradualmente ampliando seu alcance.
Sua chegada à Presidência da República, numa eleição extraordinariamente atípica, enfrentando Fernando Haddad, ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo, como representante da esquerda e de uma estrutura de poder cuja presença na política e no governo já estava consolidada havia anos, representou um momento historicamente decisivo para o reconhecimento da direita na vida política do país.
Pela primeira vez em décadas, o pensamento conservador, representado por uma candidatura presidencial de direita, confrontou e venceu eleitoralmente a esquerda.
As redes sociais passaram a revelar, simultaneamente, as vozes dos alunos do professor Olavo de Carvalho, que se destacavam no contraditório dos debates ideológicos. A esquerda, que sustentava aquilo que muitos identificam como o “pensamento único de esquerda”, passou a enfrentar uma sistemática desconstrução de suas ideias e narrativas.
Assim, as duas faces da direita passaram a oferecer ao país o conteúdo da ideologia e a prática do processo eleitoral. De um lado, a formação de uma corrente de pensamento conservador; de outro, a construção de uma liderança política com capacidade de mobilização popular e expressão eleitoral.
O que era uma manifestação individual passou a constituir um movimento político de dimensão nacional, capaz de influenciar eleições, reorganizar forças partidárias e alterar o debate público brasileiro.
Neste momento, após os resultados das eleições de 2026, a grande indagação está nos desdobramentos que irão indicar o futuro do Bolsonarismo, especialmente quanto às suas relações internas, à renovação de suas lideranças e à preservação de sua unidade.
Qualquer grande movimento político sofre, e continuará sofrendo, a interferência do tempo. Sua sobrevivência dependerá da capacidade de suas lideranças de compreender as transformações da sociedade, administrar suas divergências e sustentar a travessia entre o protagonismo de seu fundador e a continuidade de sua presença na vida nacional.
(*) Jorge Gama é Advogado e ex-Deputado Federal.
