A força das ruas: como a militância progressista ajudou Lula a ampliar votação na Baixada Fluminense
Em Nova Iguaçu, Lula recebeu quase 40 mil votos a mais no segundo turno. Na reta final, jovens, partidos de esquerda e movimentos populares intensificaram a campanha em ruas, estações e praças.

(*) Por Fabrício Amaral
Em Nova Iguaçu, presidente conquistou quase 40 mil votos a mais no segundo turno; juventude, partidos de esquerda e mobilização popular ocuparam ruas, estações e praças na reta final da eleição
A eleição presidencial de 2026 deixou um retrato importante na Baixada Fluminense: embora Flávio Bolsonaro tenha mantido a maioria dos votos nos 13 municípios da região, Luiz Inácio Lula da Silva ampliou significativamente sua votação no segundo turno.

Foram 176.983 votos a mais para Lula na comparação com o primeiro turno. O presidente passou de 760.492 para 937.475 votos na Baixada, um crescimento de 23,27%. Em Nova Iguaçu, o avanço foi ainda mais expressivo: Lula saiu de 151.528 votos no primeiro turno para 190.623 no segundo, uma diferença de 39.095 votos.
O resultado não pode ser explicado apenas pelos números das urnas. Nas semanas que separaram os dois turnos, as ruas da Baixada foram tomadas por uma intensa movimentação política. Em Nova Iguaçu, particularmente, a juventude estudantil e partidos do campo progressista intensificaram a presença nos espaços públicos, levando a campanha para além das estruturas tradicionais.
A juventude ocupou as ruas
Um dos movimentos que mais chamou atenção em Nova Iguaçu foi a atuação da Unidade Popular (UP).
Jovens militantes do partido realizaram ações praticamente todos os dias em diferentes pontos da cidade. Estações de trem, calçadão, praças e áreas de grande circulação passaram a ser locais de distribuição de panfletos, adesivos e diálogo direto com a população.
A cena se repetia pela cidade: onde havia uma ação de rua, havia também militantes da UP.

A atuação ganhou relevância também pelo perfil do partido, que vem buscando ampliar sua presença entre estudantes e setores da juventude. Mais do que disputar votos para uma candidatura própria, parte dessa militância passou, no segundo turno, a atuar pela eleição de Lula, integrando uma frente mais ampla de organizações e partidos de esquerda.
Jandira fincou raízes em Nova Iguaçu
Outro destaque foi a atuação do PCdoB, especialmente através da deputada federal Jandira Feghali.
Enquanto parte das lideranças políticas concentrou esforços em agendas pontuais, Jandira manteve uma presença constante em Nova Iguaçu. Depois de participar, ainda no primeiro turno, de um ato ao lado de Benedita da Silva, a deputada retornou à cidade em outras oportunidades para conversar com militantes, trabalhadores e lideranças locais.


A presença de Jandira ajudou a reforçar a mobilização do campo progressista justamente em um momento em que a eleição exigia maior capacidade de organização.
O PCdoB, um dos partidos históricos da esquerda brasileira, assumiu papel importante na construção dessa mobilização. Em Nova Iguaçu, a atuação partidária combinou presença territorial, diálogo com trabalhadores e articulação com outras forças políticas.
PT muda a estratégia no segundo turno
O próprio Partido dos Trabalhadores também apresentou uma dinâmica diferente no segundo turno.
A estrutura partidária, que havia sido alvo de críticas durante a primeira etapa da eleição, passou a funcionar de maneira mais intensa. A sede teve horário ampliado, bandeiras foram distribuídas e a militância ganhou mais estrutura para atuar nas ruas.
Também houve reclamações relacionadas à falta de adesivos e outros materiais, mas parte dos problemas históricos de organização foi enfrentada na reta final.
Outro ponto importante foi a tentativa de superar divisões internas que ainda permaneciam após o Processo de Eleições Diretas (PED). Para uma campanha de segundo turno, a necessidade de unidade acabou se impondo sobre disputas internas.
O resultado foi uma presença maior do PT nas ruas e uma articulação mais ampla com os demais partidos e movimentos que compunham o campo progressista.
Um campo progressista que já vinha crescendo
A movimentação do segundo turno não surgiu do nada.
O primeiro turno já havia mostrado mudanças importantes no comportamento eleitoral de Nova Iguaçu. O campo progressista conseguiu eleger ou impulsionar diferentes nomes ligados à esquerda e ao centro-esquerda, entre eles Lindbergh Farias, Rick Azevedo, Marcelo Freixo e Elias Jabbour, além de outros parlamentares.
Ainda que alguns desses nomes não tenham retornado à cidade no segundo turno ou tenham tido uma presença mais tímida nos atos de rua, o desempenho eleitoral de suas candidaturas ajudou a revelar a existência de uma base progressista relevante em Nova Iguaçu.
Na disputa estadual, também houve destaque para nomes ligados à Baixada, como André Ceciliano.
Esse cenário indicava que havia uma base social e eleitoral progressista em movimento na cidade. O segundo turno, portanto, encontrou um terreno que já vinha sendo preparado durante a eleição proporcional.
Quase 40 mil votos a mais

Os números de Nova Iguaçu ajudam a dimensionar o tamanho dessa mudança.
No primeiro turno, Lula recebeu 151.528 votos, equivalentes a 33,68% dos votos válidos. No segundo turno, chegou a 190.623, passando para 40,99%.
Foram 39.095 votos adicionais.
A votação de Flávio Bolsonaro também cresceu em números absolutos, de 267.454 para 274.403 votos, mas em ritmo muito menor: 6.949 votos. Com isso, a participação percentual de Lula entre os votos válidos aumentou 7,31 pontos percentuais, enquanto a do adversário caiu 0,44 ponto.
A mesma tendência apareceu em outros municípios da Baixada. Em Duque de Caxias, Lula ganhou 44.705 votos entre os dois turnos. Em São João de Meriti, foram 22.973 votos a mais; em Belford Roxo, 22.865. Magé, Mesquita, Nilópolis, Queimados, Itaguaí, Japeri, Seropédica, Guapimirim e Paracambi também registraram crescimento.
O voto pelo descanso
Por trás dos números, existe também uma pauta que mobilizou trabalhadores: a perspectiva de um novo período de descanso.
A discussão sobre a jornada de trabalho e a redução da escala 6×1 ganhou espaço durante a campanha e dialogou especialmente com trabalhadores jovens, setores de serviços, comércio e trabalhadores precarizados.
Em Nova Iguaçu, essa pauta encontrou uma militância que já estava presente nas ruas. Estudantes, trabalhadores e organizações partidárias passaram a disputar não apenas o voto, mas também a narrativa sobre qual projeto de país deveria prevalecer.
Foi nesse ambiente que a campanha de Lula ganhou fôlego no segundo turno.
Uma virada que começou nas ruas
Nova Iguaçu não foi uma exceção dentro da Baixada. Os números mostram que houve uma ampliação generalizada da votação de Lula na região.
Mas a experiência iguaçuana revela algo que os números, sozinhos, não conseguem explicar: a política voltou a ocupar fisicamente as ruas.
(*) Fabrício Amaral é produtor cultural














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