Itaguaí: Em meio à turbulência política, ações para o sucesso

Itaguaí: Em meio à turbulência política, ações para o sucesso

Campanha do prefeito Haroldo Jesus, em Itaguaí (RJ), é um case de marketing eleitoral que resultou em eleição com vitória esmagadora com quase 80% dos votos

(*) Por Jupy Junior

Imagine um político vencer uma eleição com quase 80% dos votos. Esse feito foi alcançado em Itaguaí, que viu um período de dois anos de turbulência política se encerrar no último dia 25 de outubro, em pleito suplementar, com um resultado avassalador. Foram 77,47% dos votos válidos, o equivalente a 58.054 votos em um total de 100.477. Haroldo Jesus (Haroldinho, PDT-RJ), então presidente da Câmara e prefeito interino, sagrou-se prefeito eleito até o final de 2028.

Geograficamente privilegiada e por isso estratégica para a economia do Rio de Janeiro, a cidade de Itaguaí tem orçamento de mais de 1 bilhão de reais/ano, mas longe de ser tranquila do ponto de vista político.

Nos últimos anos, experimentou notoriedade negativa em diversas ocasiões. Operações da Polícia Federal, cassação de prefeitos, batalhas jurídicas. A última durou quase dois anos, e se encerrou no último pleito, que foi suplementar devido justamente a uma decisão judicial que demorou para sair.

Como sustentar um planejamento político-eleitoral em meio a tantos sobressaltos e disputas? Como desenvolver estratégias em meio às incertezas do período, e, o mais importante: como trabalhar a imagem de um político que ocupa o mais alto cargo do Executivo municipal em meio a tantas tempestades?

O carioca Dan Wingler, 41 anos, foi o mentor dessa trajetória no que diz respeito ao marketing. Um dos pontos que ele destaca é que a eleição de Haroldo “começou muito antes da campanha”.

Itaguaí em ebulição política

A efervescência política em Itaguaí é fora da curva. A cidade experimentou um longo período em que Carlo Busatto Junior, o Charlinho, comandou a prefeitura. Ele foi eleito em 2005 e, reeleito em 2008, ficou no cargo até 2012. Voltou quatro anos depois e não terminou o mandato: foi cassado em 2020. O presidente da Câmara na ocasião, Rubem Vieira (Podemos), assumiu o mandato-tampão até o final de 2020 e venceu a eleição naquele ano. Ao final de 2024, candidatou-se novamente, mas não podia, de acordo com a Constituição.

Rubão – como é conhecido-, aconselhado por advogados, insistiu. Iniciou-se assim uma longa e tenebrosa página da história de Itaguaí que teve Rubão e Haroldo como antagonistas e que colocou a população em uma incerteza angustiante sobre o futuro político da cidade.

Em janeiro de 2025, quando assumiu a prefeitura interinamente, Haroldo convidou Dan Wingler, que, junto com seu sócio Matheus Torres e o estrategista político Tiago Silas, elaboraram estratégias e criaram procedimentos que culminaram com uma vitória esmagadora sobre uma oposição truculenta e agressiva.

O trabalho, como Wingler explica, nada teve de fácil, mas trouxe importantes e úteis lições que acrescentam conhecimento ao campo do marketing político.

Diversos fatores

A meta era uma eleição suplementar que ainda nem estava marcada e que dependia da superação de várias etapas jurídicas.

Então, a construção de um candidato sem as definições do jogo e sem as certezas de prazos em função de um pleito tornaram o desafio ainda maior.

“Foi um voo às cegas por um lado, mas, por outro, enxergamos no Haroldo um político forte e humano, e trabalhamos esses pontos fortes”, conta Dan, que tem mais de uma década de experiência em condução de campanhas eleitorais e marketing político.

Segundo ele, a combinação de estratégia, planejamento, monitoramento e trabalho em equipe foi fundamental para o resultado positivo.

A ideia foi construir uma presença digital forte, aproximar o gestor da população e estabelecer uma comunicação direta, frequente e transparente com os moradores de Itaguaí.

Para tanto, foi necessário colar em Haroldo quase o tempo todo, estabelecer pautas importantes para os vídeos, ter agilidade na edição e noção de timing. Além disso, foi necessário interagir de modo extenuante com as demandas da população que enviava directs nas redes sociais.

Graças às providências da equipe, Haroldo tornou-se um fenômeno nas redes sociais: são mais de 87 mil seguidores ao somar todas as redes. A média mensal é de mais de 10 milhões de visualizações.

Jovem, bonito e carismático

O fato de Haroldo ser jovem (38 anos), bonito e carismático certamente ajuda, mas não é tudo. As incertezas dos embates jurídicos constantes prejudicavam a sua atuação como governante, que, sendo interino, tem muitas limitações administrativas.

Era necessário que o governo tivesse visibilidade e que Haroldo fosse alçado à condição de gestor, algo que, enquanto presidente da Câmara, não era viável.

O desafio, portanto, era fazer a população acreditar que Haroldo seria um bom prefeito um dia, mesmo que esse dia ainda não estivesse no horizonte visível.

“Era como fazer aquecimento para um jogo que ainda não estava marcado”, diz Dan Wingler, que completa: “Mas sabíamos que dia a dia estávamos construindo uma imagem forte e que a participação da população era fundamental”.

Haroldo não estava habituado a vídeos: este era outro detalhe que foi trabalhado pouco a pouco. Hoje em dia, o prefeito está bem mais à vontade com a câmera e com discursos, fruto direto do período em que precisou intensificar essas práticas.

A figura de homem de família, alegre, bem humorado e disposto já era naturalmente associada a Haroldo. O problema era estabelecer um contato mais próximo da população e manter a regularidade como presença digital, algo que a equipe consolidou ao longo do tempo de forma atenta e contínua.

Trabalho de equipe

Vários profissionais foram envolvidos. Não era uma equipe numerosa, mas sim diligente. Haroldo teve que se adaptar à presença constante de fotógrafos, filmmakers e profissionais de comunicação.

Haroldo se dedicou e superou dificuldades.

Em vez de começar do zero, a equipe pôde trabalhar sobre uma estrutura construída ao longo de meses. Quando a campanha começou, Haroldo estava pronto e a população acostumada e vê-lo. Isso, certamente, foi decisivo.

Este case então demonstra que um cenário indefinido não significa trabalho indefinido. Muito pelo contrário.

A eleição suplementar apresentou desafios particulares. A polarização política nacional teve reflexos na disputa municipal, e exigiu da equipe atenção redobrada à narrativa, ao posicionamento e à comunicação com diferentes públicos.

Outro obstáculo foi o enfrentamento das fake news. A equipe precisou monitorar informações, identificar conteúdos falsos e trabalhar na divulgação de esclarecimentos. Por isso, a credibilidade construída antes da campanha foi decisiva nesse processo. A presença digital consolidada e a relação estabelecida com o público facilitaram a distribuição de informações e as respostas às tentativas de desinformação.

A campanha teve duração de 60 dias, o que exigiu planejamento contínuo, capacidade de adaptação e organização de uma estrutura capaz de manter a intensidade das ações até o fim.

Além de Dan Wingler, Matheus Torres, seu sócio, teve papel central na operação diária ao acompanhar presencialmente Haroldinho, gerenciar equipes e garantir a execução das ações planejadas.

Tiago Silas, estrategista político, também foi peça fundamental para a comunicação e marketing da campanha. Sua atuação envolveu articulação com lideranças, estratégia política, organização de agendas, viabilização de gravações e compartilhamento de informações estratégicas para orientar as decisões da equipe.

A estrutura contou com jornalistas, filmmakers, fotógrafos, editores, profissionais de monitoramento digital, lideranças e equipes de apoio responsáveis por transformar o planejamento em ações concretas.

Fenômeno

Haroldinho hoje é um fenômeno. É o prefeito mais votado da história de Itaguaí.

A campanha de Haroldinho em Itaguaí ensina o quanto é importante o planejamento de longo prazo no marketing político, especialmente em um cenário no qual a comunicação digital, a transparência, a credibilidade e a capacidade de mobilização ocupam um espaço cada vez mais relevante nas disputas eleitorais.

(*)  Jupy Junior é Assessor de Imprensa