Libras vira ponte de comunicação e inclusão para alunos de escola municipal em Nova Iguaçu

Libras vira ponte de comunicação e inclusão para alunos de escola municipal em Nova Iguaçu

Projeto bilíngue implantado no Valverde atende cerca de 500 estudantes e mostra, na prática, como a língua de sinais pode transformar relações dentro e fora da escola

Aprender Libras na escola está ajudando a mudar a forma como crianças de Nova Iguaçu se comunicam e se relacionam com pessoas surdas ou que utilizam outras formas de expressão. Na Escola Municipal Professora Eliana Martins Maia, no bairro Valverde, cerca de 500 alunos participam do projeto pedagógico Escola Bilíngue Português e Libras, implantado em 2025.

A iniciativa transforma a sala de aula em um espaço de aprendizado e, ao mesmo tempo, amplia as possibilidades de comunicação dos estudantes no ambiente familiar e na comunidade. A proposta parte de um princípio simples: a Libras não deve ser conhecida apenas por pessoas surdas, mas também por quem convive com elas.

A experiência ganha ainda mais significado neste sábado (26), Dia Nacional do Surdo, data que reforça a importância da acessibilidade e da inclusão. Na escola, porém, o aprendizado da língua de sinais acontece durante todo o ano, por meio de atividades que envolvem música, jogos e muita interação.

O diretor-geral da unidade, Thiago Jorge Oliveira Dias, explica que atualmente a escola não possui alunos surdos, mas dois estudantes são filhos de uma mãe surda. Segundo ele, as aulas já provocaram mudanças concretas na rotina familiar.

“Eles relatam que as aulas de Libras facilitaram a comunicação dentro de casa e também têm sido importantes para que eles a ajudem a se comunicar com pessoas ouvintes no dia a dia, inclusive quando é preciso que ela compareça à escola, por exemplo”, conta.

Para a Secretaria Municipal de Educação, a experiência pode servir de modelo para ampliar o ensino de Libras na rede. A secretária Virgínia Rocha afirma que a intenção é levar o projeto para outras unidades.

“Nós iniciamos o projeto pedagógico na E. M. Professora Eliana Martins Maia, mas nossa meta é levá-lo para todas as outras escolas e, assim, avançar cada vez mais na educação inclusiva com ampliação da Libras em nosso município”, afirma.

Aprendizado mais próximo das crianças

Voltadas aos estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, as aulas apostam em atividades práticas para tornar o contato com a Libras mais natural e divertido.

Músicas, jogos e dinâmicas interativas fazem parte da metodologia aplicada pelo professor Thiago Silva. A estratégia busca aproximar as crianças da língua de sinais e estimular a participação dos alunos durante as atividades.

“Nós atuamos com dinâmicas interativas que envolvem música e também jogos. Desta forma, os alunos realmente se sentem bastante atraídos à forma como a gente costuma trabalhar”, explica o professor.

Além da importância para a inclusão, o conhecimento de Libras também pode representar uma ferramenta para a vida profissional dos estudantes. A língua é reconhecida oficialmente no Brasil e seu domínio pode ser útil em diferentes áreas de atuação.

“A Libras é uma língua reconhecida por lei e este conhecimento se mostra cada vez mais necessário em diversos setores. Saber se comunicar por meio da Libras é um grande diferencial no mercado de trabalho”, destaca Thiago.

Caminhos para alunos não verbais

O projeto também vem mostrando resultados entre estudantes que encontram dificuldades para se comunicar pela fala. Na escola, a Libras passou a ser utilizada como uma das alternativas de expressão para crianças que necessitam de outras formas de comunicação.

Segundo Nathália Araujo de Sá, coordenadora da Educação Especial Inclusiva de Nova Iguaçu, a estratégia pode ser especialmente importante para alunos autistas que não utilizam a comunicação verbal.

“Esta estratégia pedagógica de aprendizagem tem se mostrado fundamental, por exemplo, para alunos com autismo que não se comunicam verbalmente. Com essa iniciativa, eles conseguem se expressar”, explica.

Um dos exemplos é Théo Jardim Bueno, de 5 anos, aluno do Infantil 4. Matriculado na escola desde o início deste ano, o menino encontrou na Libras uma nova possibilidade de estabelecer contato com a família.

A mudança emocionou o pai, o técnico em enfermagem Leonardo Jardim. Segundo ele, antes das aulas, a família tinha dificuldade para compreender e estabelecer uma comunicação efetiva com o filho.

“A gente não tinha nenhum tipo de comunicação com o Théo, não conseguia acessar o mundinho dele. Depois das aulas de Libras, a comunicação em casa ficou muito melhor. Todo pai sempre almeja ouvir a voz do filho, o ‘eu te amo’, ‘bom dia, papai’. Graças à língua de sinais, ele é capaz de dizer ‘eu te amo’ para mim”, relata.

A história de Théo e a experiência dos alunos que passaram a ajudar a mãe surda mostram que o aprendizado da Libras pode ultrapassar os limites da escola. Na prática, os sinais criam novas possibilidades de diálogo, autonomia e convivência.

Em Nova Iguaçu, a proposta é fazer da língua de sinais uma ponte cada vez mais presente na educação. Uma ponte capaz de aproximar crianças, famílias e comunidade e mostrar que comunicação também pode acontecer para além da fala e da audição.

Fotos: Renato Fonseca/PMNI